Plantas e fungos ameaçados – Quase duas em cada cinco espécies estão em risco; parte delas tem interesse econômico

Plantas das famílias dos cactos aparecem com frequência entre as espécies ameaçadas

Ofungo eburiko (Fomitopsis officinalis), um parasita com propriedades antimicrobianas que chega a 60 centímetros de comprimento e apodrece o tronco de coníferas da Europa, Ásia e Estados Unidos, está ameaçado de extinção e já desapareceu na Espanha. Já a trombeta-vermelha-do-anjo (Brugmansia sanguinea), um arbusto da América do Sul com flores vermelhas que faz parte da medicina indígena tradicional e é usado na produção de medicamentos para distúrbios circulatórios, não existe mais na natureza. Das 25.791 plantas conhecidas pelo seu efeito medicinal, 5.411 foram avaliadas de acordo com o risco de extinção e, dessas, 723 (13%) estão ameaçadas, de acordo com o relatório Estado mundial de plantas e fungos, resultado de uma colaboração internacional entre 210 cientistas de 42 países e 97 instituições, publicado no dia 30 de setembro.

“Quase 40% das espécies de plantas, cerca de 140 mil do total de 350 mil espécies conhecidas, estão em perigo de extinção. Estamos arriscando perdê-las antes mesmo de encontrá-las e descobrir que possíveis benefícios podem nos trazer”, diz o botânico brasileiro Alexandre Antonelli, diretor científico do Kew Gardens, em Londres, e editor do trabalho. 

Comparado ao primeiro relatório, de 2016, a proporção de plantas em risco praticamente dobrou, de 21% para 39,4% das espécies já descritas. Em parte, o aumento se deve ao uso de métodos estatísticos para corrigir distorções da lista vermelha, um inventário sobre o estado de conservação das espécies elaborado pela União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN). A inclusão depende de diversos fatores, como a disponibilidade de informações e o interesse despertado pela espécie, que privilegia determinados grupos — os cactos, por exemplo, estão representados em excesso. 

Não foram considerados fatores como as mudanças climáticas, que podem aumentar ainda mais a proporção de espécies ameaçadas. Além disso, muitas das plantas que ainda não foram descritas podem ter distribuição restrita, o que agravaria o risco de extinção, segundo os autores de um dos artigos publicados na revista Plants People Planet que servem de base para o relatório. 

A bromélia Fernseea itatiaiae, com cerca de 30 centímetros de altura e flores rosadas, vive em afloramentos rochosos, em condições úmidas e frias, na parte alta do Parque Nacional do Itatiaia, na divisa entre os estados de Rio de Janeiro e Minas Gerais. Mas está ameaçada de extinção pelos incêndios que, quase todos os anos, afetam a região. Bromélias e orquídeas são os grupos vegetais em maior risco.

“A sociedade deu as costas ao potencial das plantas e fungos como mitigadores de problemas globais fundamentais, como segurança alimentar e mudanças climáticas”, diz Antonelli.

Trombeta-vermelha-do-anjo, usada como medicamento, já não existe na naturezaRBG Kew

Opções à mesa
“Inúmeras espécies de plantas e fungos úteis como alimento poderiam ser aproveitadas de forma sustentável, mas são relegadas pelo foco excessivo em poucos tipos”, diz Antonelli. “Três cultivares — arroz, milho e trigo — sustentam 4 bilhões de pessoas.” O relatório destaca que das 7.039 plantas conhecidas com potencial comestível, 417 (5,9%) são cultivadas e apenas 15 fornecem 90% de todas as calorias consumidas pela humanidade. A falta de variedade torna a alimentação menos nutritiva, agravando a desnutrição e deixando as populações humanas mais vulneráveis a mudanças climáticas, uma vez a queda de produtividade de um único cultivar pode representar uma lacuna dramática na produção global de alimentos.

O relatório traz bons exemplos. Quando torrados, os grãos de marama (Tylosema esculentum), consumidos no sul da África, têm gosto semelhante ao da castanha-de-caju e podem ser fervidos ou moídos para fazer mingau ou uma bebida de sabor semelhante ao do cacau. Também podem ser usados para fazer óleo, manteiga e leite e como substituto da carne. Outra planta multiuso é o baobá, quase todas as partes da árvore podem ser aproveitadas: frutos e sementes servem como alimento, a polpa é usada popularmente como remédio para febres e diarreia e a casca para fazer papel, corda e tecido. Ambas as plantas são tolerantes à seca, e o baobá também é resistente ao fogo.

Novas espécies úteis são descobertas a cada ano. Em 2019, foram descritas seis novas espécies de Allium – gênero ao qual pertencem o alho, a cebola, o alho-poró e a cebolinha – na Turquia, Albânia, Grécia e China. No Brasil, foram identificados dois tipos selvagens de mandioca e uma árvore da família do mogno com potencial para ser uma nova fonte de madeira e ajudar a preservar seu parente, já próximo da extinção.

A carnívora Genlisea hawkingii foi descrita este ano em uma área protegida cercada por impacto agropecuárioVitor Miranda / Unesp

Plantas conhecidas e pouco usadas também apresentam potencial para produção de biocombustível. Atualmente, apenas seis cultivares – milho, cana-de-açúcar, soja, dendê, colza e trigo – geram 80% do combustível vegetal. Mas há outras 2.500 espécies com características semelhantes que poderiam ajudar 840 milhões de pessoas sem acesso a eletricidade e combustível de cozinha em países de baixa renda, principalmente na África subsaariana, Ásia e Oceania, além de reduzir as emissões de carbono.

Algumas alternativas já são exploradas comercialmente. A microempresa queniana EcoFuels Kenya, por exemplo, processa mais de 3 mil toneladas de castanhas coletadas na natureza por ano, extraindo óleo para substituir o diesel de motores e geradores. As cascas são convertidas em ração para gado e fertilizante.

Bromélia do Parque Nacional do Itatiaia está ameaçada de extinção pelos incêndios recorrentesMarina Muniz Moreira

Fonte inexplorada
Nos últimos 15 anos, foram descobertas entre 2.100 e 2.600 espécies de plantas por ano. Em 2019 foram identificadas 1.942 espécies de plantas e 1.886 de fungos — e espera-se que o ritmo seja mantido nos próximos anos. Os fungos, com 148 mil espécies descritas, são menos conhecidos: estima-se que menos de 10% deles foram descritos pela ciência até hoje — número insuficiente para estimar o risco de extinção do grupo.

“O Brasil foi o país que mais descreveu novas espécies de plantas e a China o que mais publicou espécies de fungos”, diz a botânica Rafaela Campostrini Forzzado Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro (JBRJ) e uma das autoras do capítulo sobre coleções globais. “Construímos um herbário virtual que inclui amostras de plantas brasileiras coletadas no século XIX, nas primeiras expedições dos naturalistas, e foram armazenadas em herbários europeus como o do próprio Kew e do Museu Nacional de História Natural de Paris”, diz a botânica Marli Pires Morim, da mesma instituição e coautora do capítulo, referindo-se ao herbário virtual Reflora, que abriga quase 4 milhões de amostras em 86 herbários da Europa, Estados Unidos e Brasil. “Antes, os pesquisadores precisavam peregrinar entre vários herbários.”

“A perda da biodiversidade é um problema provavelmente até mais sério e urgente que as mudanças climáticas, pois uma espécie extinta nunca voltará”, afirma Antonelli. “Em um momento de extinção acelerada, não estamos conseguindo acessar o baú do tesouro de incrível diversidade em oferta e perdemos uma grande oportunidade para nossa geração”, lamenta.

Em janeiro, foi descrita uma nova espécie de planta carnívora, com até 30 centímetros de altura e pétalas lilases, que cresce em solo rochoso perto de riachos e cachoeiras na cidade de Delfinópolis, Minas Gerais, nas cercanias do Parque Nacional da Serra da Canastra. Denominada Genlisea hawkingii, em homenagem ao físico Stephen Hawking, a erva só foi encontrada nesse local e, fora da proteção do parque, está ameaçada pela agricultura, agropecuária e mineração. A carnívora pertence a um gênero com genomas minúsculos, os menores de todas as plantas com frutos, por isso desperta o interesse dos estudiosos da evolução das plantas.Mogno ou cedro?
Livro ajuda a identificar madeira legal

Fácil de trabalhar, a madeira do mogno se parece com a do cedro, da andiroba e da itaúbaFoto: Signey/Wikimedia Commons | Detalhe: Maliz Ong / Wikimedia

Uma forma simples e efetiva pela qual comerciantes de madeira ilegal burlam a fiscalização é mostrar ao policial que os aborda uma nota fiscal falsa relativa a outra espécie. Esta, de madeira legal. O mogno, uma madeira nobre e fácil de trabalhar, mas ameaçada de extinção e por isso protegida, se parece com o cedro, a andiroba e a itaúba, que podem ser comercializadas. Todas têm madeira dura, cerne de cor marrom-acastanhado e minúsculas perfurações visíveis a olho nu — mesmo um fiscal experiente terá dificuldade de identificar a carga e flagrar a fraude.

O livro Identificação macroscópica de madeiras comerciais do Estado de São Paulo, da bióloga Sandra Borges Florsheim, do Instituto Florestal, fornece todos os subsídios para identificar a maioria das madeiras comerciais com apenas uma lupa de 10 vezes de aumento, abordando desde o corte e a preparação de amostras até a cor, o cheiro e o sabor. A publicação conta ainda com fotos e uma chave de identificação, que guia o leitor por meio de uma série de perguntas dicotômicas (“a madeira é de cor castanho-escuro ou de outras cores?”, por exemplo). A metodologia foi desenvolvida em 2007 e, quando implantada, permitiu um aumento de apreensão de 630% pelas polícias Ambiental e Rodoviária.

“Os policiais examinavam amostras de madeiras com um microscópio portátil conectado a um notebook, cujas imagens eram enviadas pela internet”, conta Florsheim. As amostras eram examinadas por ela mesma, usando amostras da xiloteca – o nome dado a coleções de madeira para pesquisa científica – como base para comparação. “A identificação correta era enviada de volta em no máximo meia hora e, de acordo com o laudo, os fiscais liberavam ou apreendiam a carga.” 

Entre 2007 e 2014, quando a fiscalização desse produto era uma prioridade do governo do estado de São Paulo, o maior consumidor de madeira da Amazônia, Florsheim treinou equipes de policiais. O livro está pronto desde 2014, quando se esgotaram os subsídios para o programa de fiscalização, e só agora obteve o financiamento para publicação. “A obra ajuda a difundir a técnica e serve para o policial, o leigo que quer comprar madeira ou o madeireiro que quer saber se está recebendo a madeira certa”, resume. 

Artigos científicos
ANTONELLI, A. et alState of the world’s plants and fungi 2020Royal Botanic Gardens, Kew. set. 2020.
LUGHADHA, E. N. et alExtinction risk and threats to plants and fungiPlants People Planet. 9 jun. 2020.
SILVA, S. R. Genlisea hawkingii (Lentibulariaceae), a new species from Serra da Canastra, Minas Gerais, BrazilPLOS ONE. 15(1): e0226337. 15 jan. 2020

Livro
FLORSHEIM, S. M. B. Identificação macroscópica de madeiras comerciais do Estado de São Paulo. São Paulo: Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente, Instituto Florestal, 2020.

Fonte:
https://revistapesquisa.fapesp.br/plantas-e-fungos-ameacados/

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Bióloga Blanche Sousa Levenhagen
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O enigma da letalidade – Dificuldades para obter o número exato de infectados e de óbitos impõem desafios para se conhecer quão mortal é a doença

Logo que o novo coronavírus surgiu na China em dezembro do ano passado, causando uma misteriosa e potencialmente fatal doença que se pensava ser apenas respiratória, especialistas começaram a investigar a sua letalidade. Uma das primeiras estimativas publicadas, com base em pacientes hospitalizados na cidade chinesa de Wuhan, indicou um risco de morte de 15%, pois seis dos 41 internados no então epicentro da epidemia não haviam resistido às complicações decorrentes da infecção. Nove meses depois do início na China, mais de 33 milhões de casos em todo o mundo, 1 milhão de mortos e incontáveis estudos científicos, esse índice caiu drasticamente. A letalidade da Covid-19 varia entre 0,5% e 1%, segundo estudos ao redor do mundo, mas essa taxa ainda está em discussão. Como muitas questões envolvendo a doença e o vírus Sars-CoV-2, essa também é cercada de complexidade.

A começar pelo desafio de obter com acurácia os dois dados essenciais para calcular a taxa de letalidade: o número de pessoas infectadas pelo vírus e o de óbitos decorrentes da Covid-19. Embora seja difícil mensurar qualquer pandemia enquanto ela ainda está em curso, ainda mais quando se trata de uma doença nova, a tarefa de conhecer a real extensão de sua gravidade torna-se mais complicada em razão de certas especificidades do novo coronavírus, como a grande proporção de indivíduos infectados, mas assintomáticos, as variadas manifestações clínicas da doença e as peculiaridades da resposta imune ao Sars-CoV-2.

“Essa epidemia põe à prova tudo o que achávamos que sabíamos sobre imunidade, infecção e curva epidêmica”, afirma o epidemiologista Aluísio Barros, da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), no Rio Grande do Sul, um dos líderes da equipe científica do Epicovid19-BR, o mais amplo estudo populacional sobre o novo coronavírus realizado no Brasil, que em sua quarta e mais recente fase estimou uma letalidade da infecção de 0,7% no país.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), há duas medidas para calcular a proporção de indivíduos infectados que apresentarão desfechos fatais. A primeira é a taxa de letalidade de infecções (IFR), que estima a proporção de mortes entre todos os indivíduos infectados. A segunda avalia a proporção de mortes entre os casos confirmados e é conhecida como taxa de letalidade de casos clínicos (CFR).

A CFR pode variar enormemente entre os diferentes países, indo de 0,1% a mais  de 25%. Isso ocorre em razão de fatores variados, entre eles a capacidade de testagem de cada localidade (quanto mais exames, mais diagnósticos de casos leves e assintomáticos e menor taxa de letalidade), a demografia do lugar (quanto mais idosa a população, maior o risco de morte pela Covid-19) e a diversidade de condições de acesso à saúde da população.

Em meados de setembro, o centro de informações sobre coronavírus da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, apontava para o Brasil uma taxa de letalidade de casos de 3%, índice equivalente ao norte-americano. Já o México e o Equador, no topo da lista dos 20 países mais afetados pela pandemia em termos de letalidade, registravam percentuais de 10,6% e 9,2%, respectivamente. A Índia, segunda nação mais populosa do mundo e vice-líder em número absoluto de casos, atrás apenas dos Estados Unidos, apresentava um valor bem inferior, de 1,6%.

Uma das questões é que a CRF só contabiliza os casos confirmados, aqueles que entram para as estatísticas oficiais e cujos critérios podem mudar segundo cada governo. Boa parte das vezes, dependendo do país, não se consegue detectar e levar em conta todos os indivíduos assintomáticos ou que tiveram a forma leve da doença e, por isso, não foram diagnosticados. Com isso, aumenta a proporção de óbitos no universo dos casos, indicando uma letalidade maior do que seria na realidade. Por esse motivo, a CRF nem sempre é o melhor indicador para mostrar o quão letal é determinado microrganismo ou doença.

A IFR cumpriria melhor esse papel. Mas para conseguir calculá-lo com precisão é indispensável conhecer o número total de infectados pelo Sars-CoV-2 numa população. Como é difícil e caro testar toda a população para contabilizar todos os contaminados, governos, universidades e centros de pesquisa costumam colher informações de uma amostra populacional para estimar quantas pessoas daquele país, região ou cidade já teriam sido infectadas, sendo assintomáticas ou não, diagnosticadas ou não. São os chamados inquéritos sorológicos, como o realizado pela UFPel, que fazem exames em busca de anticorpos para o novo coronavírus.

O problema, porém, é que boa parte dessas investigações tem mostrado que a prevalência de anticorpos cai com o passar do tempo, colocando em cheque a eficácia dos testes e pondo em dúvida a durabilidade da resposta imunológica humoral (com anticorpos) à infecção. “Embora a prevalência de anticorpos na população tenha caído, o número total de infectados não diminuiu; ele só aumenta com o tempo”, diz Barros.

Um amplo estudo realizado na Islândia e publicado em 1º de setembro jogou luz sobre as dúvidas em relação à defesa humoral. No pequeno país europeu insular com 364 mil habitantes e somente 10 mortes atribuídas à Covid-19 até meados de setembro, 15% da população já havia sido testada até 15 de junho pelo exame molecular RT-PCR quantitativo, que detecta material genético do vírus.

Para investigar a resposta humoral, os pesquisadores islandeses partiram de uma amostra inicial superior a 30 mil pessoas usando seis tipos diferentes de testes de anticorpos e chegaram à conclusão de que o nível de alguns anticorpos antivirais não cai após quatro meses de diagnóstico. O que muda, segundo o estudo, é o tipo de anticorpo detectado em cada teste – e apenas dois desses exames são capazes de detectar os anticorpos cuja quantidade não se reduz com o tempo, fornecendo a medida apropriada de soropositividade.

Ao calcular de forma mais precisa o número de pessoas que já foram infectadas, os cientistas afirmam ter conseguido fazer uma estimativa mais acurada da letalidade no país, estabelecida por eles em 0,3%.“Nossa estimativa do risco de letalidade da infeção é mais baixa, mas consistente com cálculos descritos por outros”, escreveram os autores no periódico The New England Journal of Medicine, citando as taxas encontradas no navio Diamond Princess (0,6%), na China (0,66%) e na cidadezinha alemã de Gangelt (0,4%). Segundo eles, entre as pessoas infectadas na Islândia, 56% tinham sido previamente diagnosticadas via teste PCR; 14% estavam em quarentena e não tinham sido submetidas ao PCR ou haviam recebido resultado negativo; e 30% não estavam nem em quarentena nem tinham anteriormente PCR positivo.

“Concluímos, portanto, que, apesar do rastreamento extensivo pelo PCR, uma fração substancial de infecções não havia sido detectada, indicando que muitas pessoas infectadas não tiveram sintomas importantes”, acrescentaram os autores. Pelos dados oficiais obtidos com os exames de PCR positivos, a taxa de letalidade de caso clínico, a CFR, era de 0,6% – ou seja, o dobro da taxa de letalidade de infectados (IFR).

No estado brasileiro do Maranhão, que no boletim epidemiológico da Secretaria de Estado da Saúde sobre a Covid-19 divulgado em 14 de setembro tinha 162.998 casos confirmados e 3.590 óbitos, um inquérito sorológico realizado entre 27 de julho e 8 de agosto com 3.156 pessoas trouxe resultados surpreendentes. A prevalência de anticorpos no estado foi de 40%. Em cidades de médio porte, com 20 mil a 100 mil habitantes, a prevalência chegou a 47%.

A partir desses dados, a taxa de letalidade de infectados foi calculada em 0,17%. “Foi uma surpresa. Ninguém imaginava que iria dar uma prevalência de 40%. E também que teríamos uma letalidade tão baixa, uma das menores do mundo. Cogitamos fazer a genotipagem do vírus que circulou no estado para ver se há algo de diferente nele”, afirmou a Pesquisa FAPESP o epidemiologista Antônio Augusto Moura da Silva, coordenador do estudo e professor da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), destacando que o estado tem uma população jovem, sob menor risco de morrer em decorrência da doença.

Além do desafio de identificar o número de infectados pelo novo coronavírus, os pesquisadores maranhenses também enfrentaram dificuldades para obter o outro indicador fundamental para calcular a letalidade, o de óbitos por Covid-19. O Brasil testa pouco e, quando testa, os resultados podem demorar a sair. Além disso, muitas vezes o veredicto sobre a causa da morte ocorre depois de feita a declaração de óbito e, portanto, não entra como Covid-19 nas estatísticas do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde. Isso leva a uma elevada subnotificação, situação comum não apenas no Maranhão, mas em todo o país.

A dificuldade de diagnóstico pode ajudar a explicar outro fenômeno observado no Brasil e em outros países: o excesso de mortes por causas naturais quando se compara o mesmo período deste ano com a média dos últimos cinco anos. Um relatório da organização global de saúde pública Vital Strategies indicou que houve no país 22% mais mortes desse tipo do que seria esperado desde a primeira vítima faltal por Covid-19, em 16 de março, até 6 de junho.

Moura da Silva, da UFMA, afirma que, em sua pesquisa, atribuiu um terço das mortes em excesso ocorridas no estado à Covid-19. “Esse número representou um aumento de 15% nos números oficiais de óbitos que tínhamos”, diz. Os outros dois terços do excesso de mortes são atribuídos a outras causas. “Como os serviços da saúde ficaram voltados à Covid-19, especialmente em maio, o pico da pandemia no Maranhão, muitas pessoas deixaram de procurar os serviços por medo de se infectar; então a pessoa morria em casa, por exemplo, de infarto. Isso aconteceu no mundo todo.”

Uma taxa de letalidade de 0,17%, como a calculada no Maranhão, ou de até 1% pode parecer pequena, mas o cenário muda quando há centenas, milhares ou milhões de infectados em um curto período de tempo. “O que acontece com a Covid-19 é a concentração de casos em um período muito curto, o que nos deixa diante dessa confusão toda”, pondera o infectologista Esper Kallás, do Departamento de Moléstias Infecciosas e Parasitárias da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP). Segundo ele, as comparações com outros vírus e doenças devem ser feitas caso a caso. “Se você compara esse número da letalidade com o da febre amarela, a Covid-19 mata proporcionalmente muito menos. Na febre amarela, ele é altíssimo, assim como no ebola.”

No caso da Covid-19, destacam os especialistas, a letalidade varia muito conforme a idade dos infectados. No Maranhão, quando se observam os dados apenas das pessoas com mais de 70 anos, a taxa sobe para 2,4%. Na Islândia, a IFR nessa faixa etária passa para 4,4%. “É difícil interpretar indicadores tão gerais, referentes a grandes contingentes populacionais, de todas as faixas etárias em conjunto, diversos padrões de morbidade, muitas vezes de regiões que apresentam desigualdades sociais e de acesso a serviços de saúde, como no Brasil”, afirma a epidemiologista Maria Rita Donalisio, da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM-Unicamp).

Com um grupo de colegas do Observatório Covid-19 BR, que reúne pesquisadores que se dedicam a estudar e entender a doença, ela tem se debruçado sobre dados de letalidade hospitalar por Covid-19, isto é, o percentual de óbitos entre os internados. “Heterogêneos ao redor do país, esses indicadores expressam a qualidade e a precocidade da assistência, além da capacidade de confirmação diagnóstica de casos”, diz. “Refletem também as diferenças na estrutura hospitalar e na experiência clínica das equipes assistenciais, particularmente em relação aos casos críticos, que exigem manejo clínico em UTI [Unidade de Terapia Intensiva] e ventilação mecânica.” No final, afirma a médica, tudo isso também interfere no número de mortes pela Covid-19 e, por consequência, nos índices de letalidade.

Artigos científicos
HUANG, C. et al. Clinical features of patients infected with 2019 novel coronavirus in Wuhan, China. The Lancet. v. 395, n. 10223, p. 497-506. 15 fev. 2020.
STREECK, H. et al. Infection fatality rate of SARS-CoV-2 infection in a German community with a super-spreading event. medRxiv. 2 jun. 2020.
GUDBJARTSSON, D. et al. Humoral Immune Response to SARS-Cov-2 in Iceland. The New England Journal of Medicine. 1 set. 2020.
SILVA, A. et al. Population-based seroprevalence of SARS-CoV-2 is more than halfway through the herd immunity threshold in the State of Maranhao, Brazil. medRxiv. 1 set. 2020.
MEYEROWITZ-KATZ, G. et al. A systematic review and meta-analysis of published research data on COVID-19 infection-fatality rates. medRxiv. 7 jul. 2020.Republicar

Este texto foi originalmente publicado por Pesquisa FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.

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Colapso persistente de biomassa na floresta amazônica após o desmatamento leva à perdas de carbono

Fonte: INPE

Magnífico artigo de pessoal do INPE na revista Science Advances de hoje. Calcula a emissão de gases de efeito estufa não pelo desmatamento, mas pela degradação florestal. A simples divisão da floresta original em pedaços menores e isolados altera a mata de tal forma que a emissão desses gases pode se tornar 37% mais intensa.

Acontecem mudanças na temperatura, na umidade e na quantidade de luz solar que atinge a borda. Como a vegetação estava adaptada às condições mais protegidas, úmidas e frescas do meio da mata, isso leva a uma mortalidade considerável das árvores na borda do fragmento, emitindo CO2 e metano.

Artigo de livre acesso:
https://advances.sciencemag.org/content/advances/6/40/eaaz8360.full.pdf

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A divisão dos matamatás – Descrição de uma nova espécie de quelônio, antes vista como única, poderia ajudar no combate ao tráfico desses animais amazônicos

Fonte: Revista FAPESP

Descrito em 1783 pelo naturalista alemão Johann Schneider, o matamatá vive em rios da Amazônia

R. Mintern / Transactions of the Zoological Society of London, 1885 / Wikimedia

“Quelônio de construção encrencada e de aspecto hediondo. Parece alimária duma fauna fantástica, criada por um deus brincalhão.” Assim o agrônomo e divulgador científico carioca Eurico Santos (1883-1968), na primeira metade do século XX, descreveu o matamatá (Chelus fimbriata), tartaruga de água doce típica das regiões central e norte da Amazônia. Com um pescoço alongado e espesso, cabeça achatada e triangular e narinas que parecem um snorkel, o animal que ainda hoje os ribeirinhos brincam dizendo ter sido feito com partes de outros animais era até agora visto como uma espécie única, mas na verdade são duas. Com base em análises de características genéticas e morfológicas e de distribuição geográfica, pesquisadores do Brasil, Colômbia, Alemanha e Reino Unido identificaram uma nova espécie, C. orinocensis.

A descrição da nova espécie pode ter um papel importante no combate às exportações ilegais. “Podemos identificar a origem dos animais e mapear a rota do tráfico, o que contribui para o trabalho das autoridades locais”, diz a bióloga Susana Caballero, da Universidade dos Andes, na Colômbia, que participou do trabalho cujos resultados foram publicados em julho na revista Molecular Phylogenetics and Evolution

Segundo ela, o rastreamento genômico facilita a devolução dos animais para os locais de onde foram retirados. Como têm uma aparência muito peculiar, os matamatás são muito cobiçados como bichos de estimação. Em abril deste ano, cerca de 2 mil matamatás que seriam exportados ilegalmente foram devolvidos aos seus hábitats, segundo o Ministério do Ambiente da Colômbia. 

Fábio Cunha / INPA Chelus sp. da região de Barcelos, no estado do AmazonasFábio Cunha / INPA

Diferenças
As duas espécies podem ter o mesmo tamanho, chegando a 50 centímetros de comprimento, mas vivem em territórios distintos. Descrita em 1783 pelo naturalista alemão Johann Schneider (1750-1822), C. fimbriata ocupa as bacias dos rios Amazonas, no Brasil, e Mahury, na Guiana Francesa, enquanto a nova espécie vive nas bacias do Orinoco, que corta a Colômbia e a Venezuela, e alto rio Negro, no Brasil.

As diferenças físicas são sutis. Chelus orinocensis tem um dorso mais claro e um plastrão (barriga) amarelado e sem pigmentos como a espécie original. “A carapaça dos matamatás do Orinoco e rio Negro é mais clara e mais oval que a dos animais da bacia do Amazonas, de carapaça escura e mais retangular”, explica o herpetólogo Richard Vogt, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), um dos autores do artigo que descreve a nova espécie.

Diferenças morfológicas já haviam sido relatadas, indicando a possibilidade de mais de uma espécie, agora confirmada por análises moleculares. Na Universidade dos Andes, na Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e no Museu de Zoologia de Senckenberg, na Alemanha, os pesquisadores sequenciaram genomas nucleares e mitocondriais de amostras de pele e de tecido muscular de 75 animais coletados em 17 locais da bacia Amazônica (ver mapa).

As análises genéticas indicaram três ramos (ou clados), de acordo com a distribuição geográfica. O primeiro abarca exemplares de C. orinocencis das bacias do Orinoco e rio Negro, o segundo C. fimbriata da bacia do rio Amazonas e o terceiro, não reconhecido como espécie à parte, inclui animais coletados nos rios Essequibo, na Guiana, e Branco, no Brasil, com semelhanças genéticas com as duas espécies. “Os matamatás dos rios Essequibo e Branco poderiam ser uma terceira espécie ou híbridos das duas atuais, já que as análises mostraram discordâncias entre genomas mitocondriais e nucleares”, explica a bióloga Izeni Pires Farias, da Ufam e coautora da publicação. “Para confirmar, precisamos analisar uma melhor amostragem geográfica do grupo.”

As linhagens que originaram as novas espécies divergiram há cerca de 13 milhões de anos, quando as bacias dos rios Orinoco e Amazonas se separaram. “Os dois grupos se separaram e passaram a evoluir de forma independente”, diz o biólogo Tomas Hrbek, também da Ufam e coautor do estudo. 

Até onde se sabe, as duas espécies compartilham hábitos semelhantes e se alimentam principalmente de peixes. “Suas bocas parecem um aspirador que sugam a presa para dentro, com botes rápidos”, compara Vogt, do Inpa. A sucção pode levar apenas 44 milissegundos.

Richard Vogt/ INPA Cabeça de Chelus orinocensis de afluentes do do Rio NegroRichard Vogt/ INPA

Os matamatás vivem em águas calmas de rios e lagos com 1,5 a 2 metros de profundidade. “Como não nadam tão bem, eles caminham nos leitos dos lagos e rios e saem para respirar duas a três vezes por hora”, conta o biólogo Fábio Cunha, do programa de conservação de quelônios do município de Juruti, no oeste do Pará, que não participou da pesquisa sobre a nova espécie.

Para suprir a falta de dados sobre as populações de matamatás, Cunha e outros pesquisadores mapearam a distribuição de C. fimbriata e C. orinocensis e encontraram 182 novos locais de ocorrência de matamatás no Brasil, Peru, Colômbia, Venezuela e Bolívia. O estudo será publicado na próxima edição da revista Chelonian Conservation and Biology

Matamatás de estimação
Apesar de não constar como espécie ameaçada na Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e Flora Silvestres Ameaçadas de Extinção (Cites), o matamatá faz parte do mercado de animais exóticos de estimação. Uma busca no Instagram com a hashtag #matamataturtle revela lojas de pets que vendem o animal por cerca de US$ 300 nos Estados Unidos, Espanha e em países asiáticos. Aparecem também pessoas posando ao lado dos animais e vídeos que mostram o desconforto do bicho ao ser tocado.

Parte desse mercado parece ser abastecida pelo tráfico. Em artigo publicado em 2018, na revista Biota Colombiana, pesquisadores da Universidade dos Andes, em colaboração com órgãos governamentais e organizações não governamentais, ajudaram no resgate de cerca de 400 matamatás da Colômbia que seriam exportados ilegalmente para o Peru. 

“Como as tartarugas eram confiscadas em Letícia, na Colômbia, pensava-se que seriam dessa região da Amazônia, mas, por meio de análises moleculares, mostramos que a maioria vinha da região do Orinoco”, conta Caballero. 

A edição 295, de setembro de 2020, traz uma versão resumida desta reportagem

Artigos científicos
VARGAS-RAMÍREZ, M. et al. Genomic analyses reveal two species of the matamata (Testudines: Chelidae: Chelus spp.) and clarify their phylogeography. Molecular Phylogenetics and Evolution. v. 148, 106823. jul. 2020.
LASSO, C. A. et al. Conservación y tráfico de la tortuga matamata, Chelus fimbriata (Schneider, 1783) en Colombia: Un ejemplo del trabajo conjunto entre el Sistema Nacional Ambiental, ONG y academia. Biota Colombiana. v. 19, n. 1, p. 147-59. 2018.Republicar

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Queimadas na Amazônia aumentam internações – Emissões têm forte efeito na saúde da população, indicam estudos relativos a 2019 na região

Fonte: Revista FAPESP

A fumaça das queimadas pode chegar às grandes cidades, como neste caso em Manaus – Euzivaldo Queiroz/A Crítica

As queimadas na Amazônia não causam prejuízo apenas para o ecossistema ou para o clima, mas também para a saúde da população. Não é surpreendente, mas agora a afirmação se baseia em um estudo recente: em 2019, foram ao menos 2.195 internações na região amazônica devido a doenças respiratórias, a maior parte delas de pessoas com 60 anos ou mais (49% dos casos) e bebês de até 12 meses (21%). As internações resultaram em um total de 6.698 dias no hospital, a um custo para o sistema de saúde estimado em R$ 5,64 milhões. As informações, do relatório “O ar é insuportável”, foram baseadas em estudos do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (Ieps) e da organização não governamental Human Rights Watch (HRW). 

“Essa é apenas a ponta do iceberg, pois não há como incluir na análise todos os tipos de atendimento para avaliar o impacto real da fumaça sobre os serviços médicos”, diz o cientista político Miguel Lago, diretor-executivo do Ieps. “Atendimentos de ambulatório, por exemplo, não foram computados. Além disso, focamos apenas em problemas respiratórios, que poderão exacerbar a crise da Covid-19.” O impacto na saúde de populações que vivem longe dos centros urbanos também pode não ser notificado. Este ano, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) já registrou mais de 64 mil focos de incêndio na Amazônia (11% a mais do que o período similar em 2019) e mais de 15 mil no Pantanal (um aumento de 220% em relação ao ano passado), de acordo com dados atualizados em 14 de setembro.

“Há uma clara correlação entre a emissão de material particulado fino [PM2,5], principal poluente da fumaça, que foi detectado por satélites do Inpe, com o número de internações na região obtido no sistema DataSUS”, afirma o economista André Sant’Anna, da Universidade Federal Fluminense. Ele foi o responsável pelas análises estatísticas apresentadas no estudo “Impactos dos incêndios relacionados ao desmatamento na Amazônia brasileira sobre a saúde”, uma nota técnica publicada pelo Ieps em agosto de 2020.

A intoxicação por poluição do ar pode provocar problemas crônicos que diminuem o tempo de vida ou agravar o quadro de um paciente já debilitado e levá-lo à morte. Esse efeito foi corroborado por outro estudo, que estima 5 mil mortes prematuras causadas pela fumaça de 2019. O estudo relaciona a quantidade de poluição emitida com os problemas de saúde decorrentes da fumaça, ponderando possíveis mortes prematuras. “Usamos um modelo meteorológico e de química atmosférica para estimar a população afetada pela fumaça”, explica o engenheiro norte-americano Muhammad Omar Nawaz, estudante de doutorado na Universidade do Colorado em Boulder e um dos autores do artigo publicado em julho na revista GeoHealth. “Depois, relacionamos a exposição aos poluentes com problemas de saúde, estabelecendo o número de mortes prematuras decorrentes da fumaça de 2019.”

“O PM2,5 pode causar pneumonia, doenças respiratórias, infarto agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral e, quando a exposição é crônica, câncer de pulmão e peso baixo ao nascer”, informa o médico patologista Paulo Saldiva, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP). “Pode afetar também a qualidade do sêmen, fazendo com que nasçam mais mulheres do que homens.” Segundo ele, a poluição do ar está relacionada a no mínimo 4 mil mortes prematuras por ano na cidade de São Paulo.

“Incêndios na Amazônia não ocorrem de forma natural. Com frequência, os responsáveis são agentes associados a grilagem de terras públicas ou áreas indígenas, agropecuária ou especulação de terra”, afirma o físico Paulo Artaxo, da USP. O procedimento para a derrubada de florestas tem duas etapas: desmatam no fim da estação chuvosa, entre abril e maio, e esperam a estação seca, que ocorre entre agosto e outubro, para atear fogo.

Inpe Sistema de monitoramento de queimadas permite enxergar a concentração de fumaça sobre a Amazônia e o Pantanal e se espalhando para o sul, em 14 de setembroInpe

Desde o ano passado, com algumas ações dos governos federal e estaduais para coibir os incêndios na Amazônia, houve um acúmulo de áreas desmatadas que não foram queimadas. Essas áreas não queimadas podem se somar a outras que tiveram a floresta derrubada de lá para cá. Com isso, a área disponível para a queima em 2020 pode dobrar – em 2019, o fogo atingiu 5.500 quilômetros quadrados (km2) na região. 

“Estudo recente da Nasa, a agência espacial norte-americana, mostrou que 65% das áreas queimadas este ano são novas, ou seja, foram desmatadas em maio-junho de 2020”, ressalta Artaxo, que assina uma das notas técnicas do Ipam usadas como base do relatório. “O Ibama [Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis] tem um importante programa de prevenção de queimadas, o Prevfogo, com uma grande equipe de brigadistas e técnicos, que foi bastante enfraquecido desde o ano passado. Combater incêndios não é fácil e requer treinamento específico, mas o pessoal do  Exército está sendo utilizado de improviso”, afirma. “O Estado brasileiro não está mais preparado para conter os incêndios florestais de grandes proporções.”

Além disso, as queimadas se tornam mais intensas com a baixa umidade e, neste ano, a previsão é de tempo seco. O clima deve ser semelhante ao de 2005 e 2010, anos com altos índices de queimada, segundo previsão do geógrafo norte-americano Douglas Morton, da Nasa, e do engenheiro ambiental chinês Yang Chen, da Universidade da Califórnia em Irvine, Estados Unidos, autores da previsão para a estação de incêndios da Amazônia

O aumento das queimadas torna ainda mais dramática a situação do sistema de saúde da região, atacando o sistema respiratório de pacientes e um sistema hospitalar já fragilizado com a Covid-19. “Como os leitos de UTI [Unidade de Terapia Intensiva] com respiradores estão concentrados nas capitais, a população precisa se locomover a grandes distâncias para ser atendida, algo arriscado em plena pandemia”, aponta Lago. “Na Amazônia, a distância é mais do que o dobro da média nacional até a UTI mais próxima, de 155 km, mas a partir de algumas aldeias indígenas no interior da Amazônia é preciso viajar entre 700 e 1.000 km para chegar a uma cidade com atendimento médico.” 

O combate ao fogo pode diminuir a fumaça das queimadas e a poluição das cidades. Mas também é importante reconhecer o problema, estabelecendo padrões de qualidade do ar capazes de proteger a saúde da população em termos da exposição ao PM2,5. “Em São Paulo, o limite legal para a concentração do poluente é de 20 microgramas por metro cúbico, o dobro do padrão preconizado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Atingir os padrões de qualidade do ar é difícil, mas ocultar o problema, afirmando que a qualidade do ar está adequada, não é a melhor solução. Seria importante que todos tivessem consciência da situação para promover a mudança”, alerta Lago. Esse monitoramento de uma qualidade de ar dentro de padrões aceitáveis poderia ser aplicado a cidades afetadas por incêndios às vezes muito distantes, já que a fumaça das queimadas na Amazônia, no Pantanal e em zonas rurais pode ter impacto ao longo de seu transporte, atingindo até grandes cidades das regiões Sul e Sudeste.

O mesmo vale para a Amazônia: “As autoridades precisam reconhecer que estamos diante de uma crise ambiental e de saúde, e agir imediatamente”, defende Lago. “Estamos divulgando os resultados e levando esse alerta para os governos federal e estaduais.” Como o PM2,5 é levado pelo vento, os afetados estão em diversas regiões do país. “Frequentemente, essas emissões de queimadas da Amazônia atingem o estado de São Paulo. No ano passado uma conjunção de fatores, como a entrada de uma frente fria forte, intensificou o fenômeno, fazendo com que a tarde virasse noite em São Paulo. Isso pode acontecer de novo, dependendo das condições meteorológicas”, alerta Artaxo.

Artigos científicos
NAWAZ, M. O. e HENZE, D. K. Premature deaths in Brazil associated with long‐term exposure to PM2.5 from Amazon fires between 2016 and 2019. GeoHealth. v. 4, e2020GH000268. 29 jul. 2020.
ALENCAR, A. et al. Amazônia em chamas: O fogo e o desmatamento em 2019 e o que vem em 2020. IPAM nota técnica. n. 3. abr. 2020.
“O ar é insuportável: Os impactos das queimadas associadas ao desmatamento da Amazônia brasileira na saúde”. Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (Ieps) e Human Rights Watch (HRW). ago. 2020.
MOUTINHO, P. et al. Amazônia em chamas: Desmatamento e fogo em tempos de Covid-19. IPAM nota técnica. n. 4. jun. 2020.
SANT’ANNA, A. A. e ROCHA, R. Impactos dos incêndios relacionados ao desmatamento na Amazônia brasileira sobre a saúde. Ieps nota técnica. n. 11. ago. 2020.

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O negro na telenovela

Eduardo Cesar Solange Martins Couceiro de Lima: telenovela costuma reforçar esterótipos negativos com relação ao negroEduardo Cesar

A telenovela no Brasil contemporâneo reflete uma situação de racismo não explícito característico da ideologia racial praticada na nossa sociedade. Um racismo do qual as pessoas nem têm consciência e que é tão ambíguo como as próprias relações raciais, com momentos de avanço e de retrocesso.

A maneira como são tratadas as personagens negras no enredo da telenovela reflete essa ambigüidade e, ao mesmo tempo que reflete, reforça a imagem do negro que vem sendo construída e transmitida pelas grandes redes de televisão a milhões de telespectadores no País: uma pessoa humilde ou em condição social subalterna, pobre, com pouca instrução e educação.

Se mulher, sensual. Quando esses estereótipos não estão presentes, o negro acaba sendo visto no mínimo como diferente, num universo de brancos. Esta é uma das conclusões da pesquisa A Identidade da Personagem Negra na Telenovela Brasileira, da professora de antropologia cultural Solange Martins Couceiro de Lima, da Escola de Comunicação e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP). A pesquisa faz parte de um projeto mais amplo – Ficção e realidade: a telenovela no Brasil; o Brasil na telenovela -, constituído de nove diferentes estudos, oito deles financiados pela FAPESP, que está sendo desenvolvido pelo Núcleo de Pesquisas de Telenovela (NPTN) da ECA.

O trabalho da antropóloga busca estudar a personagem negra com vistas a uma discussão mais ampla das relações entre ficção e realidade e de como a telenovela reflete a ideologia racial do brasileiro. “Os autores de telenovelas normalmente dizem que a personagem negra é colocada na trama na posição menos privilegiada porque essa é a posição que, em geral, o negro ocupa na sociedade”, assinala Solange Couceiro de Lima. Ela, entretanto, questiona isso. Afinal, telenovela não é realidade.

De qualquer maneira, com aquela justificativa, o ator negro está quase sempre limitado a interpretar papéis de negro “enquanto a nossa sociedade prega a mistura racial, a miscigenação, o ator é confinado a textos que demandem especificamente personagens negras. Raramente se vê um ator negro interpretar um médico ou advogado, em princípio personagens cuja cor não tem nenhuma influência na trama”, acentua Solange. Em fase de redação e dividida em dois períodos – 1975 a 1988 e 1988 a 1997 – a pesquisa está sendo elaborada a partir da análise das novelas produzidas pela Rede Globo e exibidas no horário das sete e oito horas da noite.

Também foram consultados jornais e revistas e foram feitas entrevistas com autores, atores e diretores de telenovela. Iniciada em 1995, a pesquisa será concluída em agosto deste ano e tem aporte financeiro de R$ 12.680,00 aplicados em material de infra-estrutura como computador, vídeo cassete, edição das fitas e viagens. Duas bolsistas participam do projeto.

Escravos e motoristas
Considerada um marco na história do gênero, a telenovela Pecado Capital, que foi ao ar em 1975, mostrou, pela primeira vez, um personagem negro, usando terno e gravata, no papel de um psiquiatra. Nas telenovelas anteriores, o negro aparecia sempre em posições subalternas, fazendo papéis de motorista ou de escravo, em novelas de época. Foi um avanço, seguido, entretanto, de muitos outros retrocessos.

Em 1988, por exemplo, ano do centenário da abolição da escravatura no Brasil, uma série de iniciativas agitaram a questão racial no País. Naquele ano, recorda Solange, a telenovela Mandala, inicialmente planejada para homenagear o ator Grande Otelo, exibiu uma família de negros na trama. Ao ator, deu um papel de alcoólatra. Além disto, apresentou uma série de estereotipias, entre as quais, a da mulata sensual. “A telenovela, que presumidamente deveria homenagear o ator negro no ano do centenário da abolição, acabou mostrando exatamente só os estereótipos negativos”, destaca a antropóloga.

Em 1995, quando a pesquisa começou a ser feita de forma mais sistemática, começou a ser exibida a novela A Próxima Vítima, que incluiu no enredo uma família negra de classe média composta por personagens não estereotipadas. Outro avanço. Entretanto, segundo a pesquisadora, não havia naturalidade nas cenas em elas apareciam. A pesquisadora cita como exemplo o namoro entre uma moça negra membro dessa família e um rapaz branco.

Convidado para jantar na casa da família dela, o rapaz age de maneira burlesca à mesa (embora fosse um fotógrafo famoso de moda), apenas para tirar o negro da situação inferiorizada – sem acesso à boa educação e aos bons modos – em que ele normalmente aparece. “Ao fazer o contraste entre personagens brancos e negros, essa telenovela acabou mostrando situações inverossímeis, que demonstram a dificuldade que a equipe de profissionais tem (autor, diretor, etc.) de tratar com naturalidade as cenas com personagens negras”.

Nada surpreendente,segundo a antropóloga, porque,afinal, o autor de telenovelas também é influenciado pela formação e ideologia da sociedade e transpõe seus próprios valores ao tratar o tema. “As pessoas que fazem a mídia, que produzem a indústria cultural neste País, estão impregnadas dessa ideologia. Mas dizer que a mídia é racista, é simplificar demais. A sociedade tem o racismo qualificado e naturalizado, que é a maneira como avaliamos o negro, Numa sociedade que se quer branca, o negro é diferente; por isto ele tem que aparecer na mídia de maneira diferente.”

E a pesquisadora acrescenta: “É uma questão difícil de lidar, porque não chega a ser percebida facilmente. A imagem do negro é transmitida, as pessoas assistem , absorvem, reforçam estereótipos, mas elas não têm a consciência crítica de que é uma forma de preconceito”. Trata-se, de um racismo velado, que se acostuma com certas situações e até com a jocosidade, como, por exemplo, as piadas, que Solange classifica como “formas cínicas de um povo manifestar o preconceito”.

Formação da identidade
Ao mesmo tempo em que transmite uma imagem ao grande público, os meios de comunicação, assim como a escola, a família, os amigos, etc., também contribuem na formação da identidade social e racial dos negros. O público infantil, em especial, estabelece um processo forte de identificação/projeção com as personagens exibidas diariamente nas tevês. Nos programas infantis, os ídolos são loiros, de cabelos lisos.

E isto é percebido pelas crianças negrase brancas. Nas telenovelas, a maioria das personagens, adultas ou não também é branca.”A criança negra não tem na televisão um reflexo dela; o reflexo que ela tem é a negação, seja pela sua não existência, seja, quando existe, pela imagem negativa”, diz Solange, acrescentando que faltam estudos na área da Psicologia sobre essa questão, mas certamente ela deve pesar na auto-estima e no desenvolvimento emocional. Além disto, crianças brancas e negras, recebendo continuamente essas informações, acabam por não reconhecer a posição de igualdade das raças na sociedade.

Em relação à mulher negra, o tratamento não é diferente. A imagem transmitida é de sensualidade e sedução. “Toda vez que se mostra, como referência da mulher negra, o paradigma da Globeleza, e não o da professora universitária, da pesquisadora ou da profissional que trabalha com a questão da saúde, esse mito é reforçado”. Mas não são somente as mulheres que sofrem com a sua imagem convertida em estereótipos.

A pesquisadora detecta o surgimento de um novo padrão para o homem negro nas telenovelas: o sensual, bonito e atlético, que não significa uma democratização racial mas sim “uma referência maltratada pois simboliza o homem objeto”. Para Solange Couceiro de Lima, mesmo quando avança ou parece avançar na abordagem da questão racial, a mídia não pretende substituir os valores da sociedade. No máximo, ela vai, às vezes, transgredir alguns. “Mas essa transgressão é dentro do estabelecido, é dentro do sancionado”.

A análise detalhada do livro Memória da Telenovela Brasileira, do jornalista Ismael Fernandes, que contém as fichas técnicas de todas as telenovelas produzidas desde 1963 (ano da primeira telenovela), possibilitou à pesquisadora o levantamento daquelas que tinham a maior quantidade de atores negros. O estudo das personagens e dos enredos, ao longo de toda a pesquisa permitiu à professora concluir que a presença das personagens negras nas telenovelas continua, em geral, procurando reforçar o mito da democracia racial brasileira.

Algo que absolutamente não corresponde à realidade da sociedade nem dos meios de comunicação. “Como na democracia política, as grandes redes de televisão não estão contribuindo na construção de um modelo democrático para as relações étnicas entre brancos e negros. Não enfatizam nada que colabore para criar a auto-estima ou o orgulho de ser negro, sentimento fundamental para a construção de uma identidade”, conclui Solange.

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Para além da sala de aula – Fechamento de escolas e universidades durante a pandemia de Covid-19 traz à tona debate sobre educação a distância

Fonte: Revista FAPESP

Registro de 17 de março mostra estudante solitário no campus da Universidade de São Paulo. Instituição oferece 183 cursos de graduação com mais de 58 mil alunos

Amanda Perobelli / Reuters / Fotoarena

Um novo capítulo da história da educação começou a ser escrito assim que a adoção das primeiras medidas de isolamento social, para conter o avanço da Covid-19 no mundo, provocou o fechamento de escolas e universidades. Mais de 1,2 bilhão de alunos do ensino infantil ao superior tiveram suas rotinas alteradas, de acordo com levantamento da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). A estimativa é que 52 milhões de estudantes brasileiros, de todos os níveis, tenham sido afetados. A urgência do problema levou ao desenvolvimento de estratégias de ensino remoto em vários países, na tentativa de atenuar os efeitos imediatos sobre o processo de aprendizagem. No Brasil, o Ministério da Educação (MEC) autorizou a substituição de aulas presenciais por virtuais enquanto durar a pandemia provocada pelo vírus Sars-CoV-2.

A estudantes de escolas públicas e privadas, de diferentes regiões do país, têm sido ofertadas aulas on-line, mas nem todos conseguem acompanhá-las. Caso dos mais socialmente vulneráveis, que não têm computador em casa, tampouco acesso a um serviço de internet de banda larga. Além disso, nas classes mais pobres já conectadas, 85% das pessoas utilizam a internet apenas pelo celular e com pacotes de dados limitados, de acordo com o relatório mais recente do Comitê Gestor da Internet.

Diante da desigualdade no acesso a conexões rápidas e computadores, aprofundada durante o isolamento social, a discussão sobre as possibilidades e impasses da educação a distância (EaD) ocupa agora o centro do debate público sobre práticas de ensino e aprendizagem. Especialistas ouvidos pela reportagem, no entanto, afirmam que o uso emergencial de ferramentas digitais – para não paralisar completamente as atividades de ensino – deve ser encarado como paliativo, e não como verdadeira difusão da EaD no país. “Muitas dessas iniciativas implementadas de última hora não apresentam as principais características que definem o conceito de educação a distância”, observa Eduardo Santos Junqueira, professor do programa de pós-graduação em educação brasileira na Universidade Federal do Ceará (UFC) e coordenador do Grupo Ler (Linguagens e Educação em Rede). “Há confusão sobre o que, de fato, significa fazer um curso a distância.”

Cursos e processos de aprendizagem a distância não são caracterizados apenas pela separação física entre professores e alunos. “É marcante o uso pedagógico intenso de tecnologias de informação e comunicação nesse modelo”, ressalta Junqueira. De acordo com o pesquisador, nos últimos anos, o desenvolvimento de sistemas de transmissão em tempo real e de compartilhamento de dados ampliou a capacidade de interação na EaD. “Por meio de ambientes virtuais de aprendizagem como o Moodle, professores e alunos podem interagir com conteúdos de vídeo e áudio e aprofundar o diálogo”, diz Junqueira, referindo-se ao software livre criado em 2001 pelo programador australiano Martin Dougiamas. A plataforma é utilizada como ferramenta de educação a distância em mais de 150 países e funciona como uma universidade on-line onde professores podem disponibilizar material didático e propor atividades interativas, como testes e discussões em fóruns. Para os estudantes, o ambiente facilita a troca de conhecimento e de arquivos multimídia. Instituições como as universidades de São Paulo (USP), Federal de Minas Gerais (UFMG) e Federal de Pernambuco (UFPE) adaptaram esse sistema para criar suas próprias plataformas de EaD.Glossário
Educação a Distância (EaD):

Modalidade educacional caracterizada pela separação física entre professores e alunos. As atividades de ensino são baseadas na utilização de diferentes meios de comunicação, de apostilas impressas a computadores.

E-learning:
É a oferta de programas de educação e de aprendizagem por meio de ferramentas digitais, como softwares e plataformas interativas. Inicialmente os cursos eram oferecidos em CD-ROMs. Com o avanço da internet, surgiram os cursos on-line.

Homeschooling:
Ensino doméstico ou domiciliar. Geralmente o estudante é supervisionado diretamente pelos pais. Neste modelo, materiais de EaD costumam dar suporte para as atividades de aprendizagem. A modalidade é legalizada em países como Estados Unidos, Áustria, Canadá, França e Portugal, mas, no Brasil, não está prevista em lei.

Para que as tecnologias digitais ajudem a reduzir a sensação de distanciamento humano que caracterizou grande parte da história da EaD no mundo (ver linha do tempo) são necessários meses de planejamento em torno da criação de uma disciplina on-line, ressalta Junqueira. Não se trata, ele diz, de “jogar conteúdos numa plataforma digital e esperar que os alunos aprendam sozinhos”. É comum que a preparação do curso envolva uma equipe multidisciplinar composta por pedagogos, webdesigners, programadores e especialistas em comunicação digital. “Não se pode esperar que o professor tenha todas as habilidades técnicas necessárias para a concretização de um curso a distância. É fundamental que o docente trabalhe conjuntamente com outros profissionais para que ele e os alunos possam utilizar da melhor forma possível os recursos tecnológicos.”

Ou seja, professores que se aventuram na EaD precisam de treinamento específico. Em tempos de pandemia, ficou mais evidente que muitos não estão capacitados para atuar nesse modelo de educação, como mostra pesquisa feita pelo Instituto Península com 7.734 professores de todo o país que atuam na educação básica em escolas públicas e particulares. Desse total, 83% disseram que se sentem pouco preparados para o ensino remoto e 88% afirmaram que nunca haviam dado aula de forma virtual antes da quarentena. Dados do Comitê Gestor da Internet ainda mostram que, no Brasil, apenas 22% dos professores participaram de algum curso de formação continuada sobre o uso de computadores e internet nas atividades de ensino.

Em geral, a formação de professores no Brasil não os prepara para usar as tecnologias digitais, seja a distância ou dentro da sala de aula, avalia o matemático Klaus Schlünzen Junior, da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Estadual Paulista (FCT-Unesp), campus de Presidente Prudente (SP). Ele coordena o Centro de Promoção para Inclusão Digital, Escolar e Social (Cpides) da Unesp, dedicado a formar professores para uma educação digital e inclusiva e para utilizarem dispositivos tecnológicos e acessíveis em sala de aula, em especial para alunos com deficiência. Desde sua fundação, em 2010, o centro certificou cerca de 6 mil docentes de todo o país.

“A tecnologia está presente em vários lugares, como hospitais e bancos, mas no ensino tornou-se um tabu”, afirma Schlünzen. Em sua avaliação, o uso de metodologias adequadas para a aplicação de recursos tecnológicos é decisivo para o sucesso da aprendizagem no âmbito da EaD. “Plataformas digitais podem ajudar a estimular uma postura mais ativa nos estudantes, rompendo com o modelo tradicional centrado na figura do professor”, considera. Em meio à abundância de fontes de informação na internet, diz Schlünzen, não cabe mais ao docente ser exclusivamente um transmissor de conteúdo.

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Tartarugas são atraídas pelo cheiro do plástico podre – Um experimento mostra que elas reagem aos resíduos plásticos com incrustações orgânicas como se fossem um coquetel de camarões e peixes

Fonte: Jornal El Pais

Filhotes de tartaruga tendem a comer mais plástico que as adultas.
Filhotes de tartaruga tendem a comer mais plástico que as adultas.SKEEZE

As tartarugas são atraídas pelo cheiro do plástico que flutua nos oceanos. Um experimento com uma série de aromas mostra que elas reagem como se estivessem diante de um coquetel de camarões e peixes. Mas, para que se comportem da mesma maneira, o lixo plástico precisa ficar tempo suficiente no mar para que algas e outros organismos adiram a ele. As tartarugas reagiram aos pedaços de polietileno de uma garrafa limpa como se fosse a brisa do mar.

A cada ano, vários milhões de toneladas de plástico acabam no mar. Animais marinhos se deparam com esses resíduos e até os comem. Um estudo de 2015 calculou que 52% das tartarugas marinhas comiam plástico. O que não está totalmente claro é se fazem isso por acidente ou porque acreditam que seja comida. Segundo uma hipótese, esses répteis confundem uma sacola de supermercado com uma medusa. Mas essa explicação valeria apenas para as espécies como a tartaruga-de-couro, que se alimentam quase exclusivamente de medusas. As demais também comem peixes e crustáceos, e há algumas que pastam nas pradarias marinhas como se fossem vacas.

Agora, um experimento aponta para uma resposta a um estímulo mais complexo. Pesquisadores de várias universidades dos EUA e do Caretta Research Project, um projeto para proteger a tartaruga-cabeçuda, expuseram 15 animais dessa espécie a quatro aromas distintos. No tanque de água em que as colocaram, dispersaram quatro odores: o de um litro de água desmineralizada, o de 20 gramas de uma almôndega composta de peixes e mariscos, o de uma garrafa de água vazia em pedaços, mas limpa, e o de outra garrafa, também em pedaços, mas que tinha ficado no mar durante cinco semanas.

O trabalho, publicado na Current Biology, mostra que as tartarugas praticamente não foram atraídas pela água desionizada e pelo plástico limpo. No entanto, multiplicaram até cinco vezes o tempo que punham seus narizes para fora da água para cheirar tanto o aroma da bola de peixes e mariscos como o exalado pelo plástico com material orgânico incrustado. Também triplicaram o número de cheiradas em cada emersão. Os dois padrões são indicadores de busca de alimento. Houve até mesmo maior atividade ante o aroma do plástico com microrganismos.

“Vemos que as tartarugas-cabeçudas respondem ao aroma dos plásticos com incrustações biológicas da mesma forma que com o aroma do alimento, o que sugere que podem ser atraídas pelos restos de plástico não só por sua aparência, mas também por seu cheiro”, diz em uma nota o pesquisador da Universidade da Flórida (EUA) e coautor do estudo Joseph Pfaller. “Essa armadilha olfativa poderia ajudar a explicar por que as tartarugas marinhas engolem e se enroscam nos plásticos com tanta frequência”, acrescenta.

Os autores reconhecem que, pelo próprio desenho de seu experimento, não podem saber qual elemento específico presente no plástico foi o que atraiu as tartarugas. No tempo que passaram na água, as partes de plástico se tornaram o lar de vários microrganismos marinhos. Daí que os cientistas sugiram a possibilidade de que voláteis emanados da síntese orgânica de microalgas, hidrozoários ou outros organismos atraiam os répteis marinhos como um indício de que há comida.

Além de identificar os produtos químicos responsáveis pelo aroma atraente, a grande limitação desse trabalho é que ele foi realizado com exemplares jovens (cinco meses de vida) criados em cativeiro de uma das seis espécies de tartarugas marinhas que existem. O estudo deveria ser replicado nas outras que, com dietas diferentes, também caem na armadilha do plástico.

Seleção de matéria:

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Desenvolvemos diversos serviços na área ambiental. Dentre eles estão:
– Laudos de fauna com forme Decisão de Diretoria CETESB nº 167/2015,
– Laudo de Caracterização de Vegetação, conforme Resolução CONAMA 01/94;
– Levantamento cadastral arbóreo conforme legislação municipal e – Decisão de Diretoria CETESB nº 287/2013
– Licenciamento ambiental municipal, CETESB e IBAMA,
– Regularização ambiental,
– Projetos de recuperação de área degradada,
– Projetos de compensação ambiental (restauração ecológica) conforme – Resolução SMA nº 32/2014 e Resolução SMA nº 07/2017,
– PGRCC (Plano de gerenciamento de Resíduos de Construção Civil),
– PGRS (Plano de Gerenciamento de Resíduos Sólidos)
– TCRA (Termo de compromisso de recuperação ambiental), TAC (Termo de ajustamento de conduta), TCA (Termo de compromisso ambiental),
– PCA (Projeto de Compensação Ambiental),
– Relatórios ambientais diversos;
– Perícia ambiental e assistência técnica,
– Processos DAEE, INCRA, DEPAVE, SEMASA,
– Restauração ecológica (Plantio de compensação ambiental),
– Relatórios de monitoramento de plantio e de plantio,
– Plano de Gerenciamento de Risco de Fauna em Área Aeroportuária – CENIPA/CETESB
– Elaboração de PTRDA – DECONT (projeto Técnico de Reparação de Dano Ambiental),
– Processos GRAPROHAB
– Elaboração de documentos técnicos conforme Anexo único da Decisão de Diretoria nº 153/2014/I – MANUAL PARA ELABORAÇÃO DE ESTUDOS PARA O LICENCIAMENTO COM AVALIAÇÃO DE IMPACTO AMBIENTAL
– Elaboração de Planta Urbanistica Ambiental,
– Processo de Autorização de corte de árvores isoladas,
– Processos para obtenção de IPTU Verde,
– RAS (Relatório Ambiental Simplificado), Plano de Controle Ambiental (PCA)

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O quebra-cabeça da imunidade – Questões cruciais sobre a resposta do sistema imunológico contra o novo coronavírus permanecem em aberto

Fonte: Revista FAPESP

Imagem de microscopia eletrônica colorizada mostra uma célula humana fortemente afetada por partículas virais do Sars-CoV-2 (em amarelo)

NIAID

Oito meses depois de o vírus Sars-CoV-2, causador da Covid-19, ter sido identificado pela primeira vez em humanos na cidade de Wuhan, na China, pesquisadores e médicos ainda tentam montar o grande quebra-cabeça que indique como o sistema imunológico responde ao patógeno. Saber exatamente como as pessoas infectadas combatem e eliminam o vírus e por quanto tempo ficam protegidas de uma possível reinfecção é importante para o desenvolvimento de vacinas, medicamentos e até para as políticas públicas que determinam a necessidade de medidas de distanciamento social, quarentenas e lockdowns.

Aos poucos, as numerosas pesquisas relacionadas à Covid-19 têm fornecido peças ao jogo. O quadro, porém, segue incompleto. Até agora não há nenhum caso comprovado, que não suscite nenhuma dúvida, de reinfecção – sinal para os cientistas de que alguma proteção há para aqueles que já se infectaram. O grau dessa imunidade e a sua duração permanecem incógnitas.

A missão de completar o quebra-cabeça fica mais difícil dada a novidade representada pelo vírus e a complexidade do sistema imunológico humano – ora comparado a uma orquestra com diversos componentes, ora ao Exército com diferentes subdivisões e batalhões, ora a uma máquina com muitas engrenagens. O batalhão mais popular dessa força de defesa é formado pelos anticorpos, entre eles as conhecidas imunoglobulina G (IgG) e imunoglobulina M (IgM), identificados nos testes rápidos aplicados em farmácias e laboratórios (ver box). Anticorpos são proteínas dissolvidas no plasma sanguíneo e produzidos por linfócitos B. A defesa por anticorpos é chamada pelos médicos de imunidade humoral.

Pesquisas e inquéritos epidemiológicos em geral procuram por essas classes de anticorpos para verificar qual a porcentagem de determinado grupo populacional que já teve contato com o vírus. “Costumamos dizer que o IgG é quase como uma cicatriz imunológica, um sinal dizendo que um vírus passou por ali”, explica o médico imunologista Jorge Kalil, professor de Imunologia Clínica e Alergia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP) e diretor do Laboratório de Imunologia do Instituto do Coração (InCor).

Um estudo chinês publicado em 18 de junho na revista Nature Medicine, no entanto, observou que 37 pessoas que comprovadamente haviam sido infectadas com o Sars-CoV-2, mas permaneceram assintomáticas, apresentaram níveis menores no sangue de IgG e de anticorpos neutralizantes (que impedem o vírus de entrar nas células) do que as que tiveram sintomas moderados, apesar de ficarem por mais tempo com níveis detectáveis de vírus que os sintomáticos. Além disso, dois ou três meses depois da infecção aguda, os níveis desses anticorpos caíram a um patamar que, em 40% dos casos de assintomáticos, se tornaram não detectáveis. No caso dos pesquisados com sintomas, 12,9% ficaram soronegativos. 

O resultado da pesquisa chinesa levantou dúvidas se pessoas com a forma leve da Covid-19 estariam então mais suscetíveis a uma reinfecção. Ainda não é possível esclarecer essa questão, dizem os especialistas. Uma possibilidade é a de que os testes não tenham conseguido detectar uma quantidade menor de anticorpos e eles, apesar da pouca quantidade, seriam eficientes o bastante para combater o vírus. De qualquer forma, segundo os autores do artigo, da Universidade Médica de Chongquing, os resultados contribuem para expor os riscos de usar passaportes de imunidade à Covid-19, como alguns governos cogitaram adotar, conferindo vantagens de mobilidade a pessoas que já tivessem se recuperado da infecção pelo vírus.

Léo Ramos Chaves Cientistas do Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos), do Rio de Janeiro, trabalham no desenvolvimento de uma vacina para o novo coronavírusLéo Ramos Chaves

“Associar a presença de anticorpos, do tipo IgG, a um passaporte de imunidade é uma questão que já caiu por terra”, considera a infectologista Nancy Bellei, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “Observamos que muitos pacientes que contraíram a doença depois de algum tempo não têm mais IgG que reconheça os antígenos virais.” Para ela, que desenvolve pesquisas na área de vírus respiratórios há décadas, o resultado desse estudo na China não é exatamente uma surpresa, assim como outros que apontam na mesma direção, como um divulgado em meados de julho por pesquisadores do King’s College de Londres, na Inglaterra.

“Os vírus respiratórios classicamente não determinam uma imunidade permanente e as pessoas infectadas por eles não costumam manter os níveis de imunoglobulina positivos estáveis como logo após a infecção”, declara a pesquisadora. “A despeito de ser novo para a população humana e de apresentar características de patogenicidade em outros tecidos além dos respiratórios, o Sars-CoV-2 não deixa de se comportar e de ser classificado como um vírus respiratório”, ressalta. 

Mas níveis baixos ou mesmo ausência de IgG no plasma sanguíneo das pessoas já infectadas, mesmo que assintomáticas, indicariam que essas pessoas não têm nenhuma imunidade ao novo coronavírus? Muito provavelmente a resposta a essa pergunta é não, dizem infectologistas e imunologistas. Dois artigos recentes, publicados nos repositórios de preprints medRxiv e bioRxiv, apontam que parte dos indivíduos pode desenvolver uma forte resposta celular de linfócitos T específicos ao Sars-CoV-2 mesmo sendo soronegativa. Linfócitos são um tipo de célula de defesa do organismo.

O primeiro artigo, de autoria de cientistas da Universidade de Estrasburgo, na França, refere-se aos casos de sete famílias que tinham ao menos um de seus integrantes se recuperando da forma moderada da Covid-19. Seis de um total de oito parentes que depois desenvolveram sintomas da doença apresentaram respostas de células T, mas não anticorpos contra o novo coronavírus.

O segundo estudo, de pesquisadores do Instituto Karolinska, na Suécia, investigou a resposta de células T de memória em diferentes grupos de pessoas: doadores de sangue saudáveis, que doaram antes da pandemia ou durante; parentes que dividiam a casa com indivíduos convalescentes e expostos à doença durante a fase dos sintomas; e pessoas que estavam em fase de recuperação da doença, que haviam tido sintomas leves/nenhum sintoma ou a forma grave da Covid-19. Os cientistas também observaram uma resposta celular dos linfócitos T muito robusta mesmo sem a presença de anticorpos. 

“Os resultados desses estudos somados à inexistência de casos de reinfecção até agora nos dão certa tranquilidade de que é muito provável que tenhamos, ao menos durante algum período, certo grau de proteção. Quanto à duração dessa imunidade, só o tempo irá dizer”, destaca o infectologista Reinaldo Salomão, da Escola Paulista de Medicina da Unifesp, pesquisador responsável por um estudo apoiado pela FAPESP que vai investigar as respostas inflamatórias e imunológicas de pacientes com Covid-19 grave e moderada.

Salomão ressalta que um possível motivo para a não detecção de IgG nos testes sorológicos de indivíduos que se infectaram, tal qual demonstrado nas pesquisas realizadas até então, esteja relacionado aos próprios testes, que podem não ser tão sensíveis e específicos para o Sars-CoV-2. “Isso aconteceu também com o HIV. Agora estamos na quarta geração de testes para essa enfermidade e eles melhoraram muito.” 

Léo Ramos Chaves Profissional da saúde coleta sangue para realização de teste sorológico rápido para Covid-19Léo Ramos Chaves

Por outro lado, especialistas salientam que mesmo um teste positivo para IgG não significa necessariamente que o indivíduo esteja protegido contra o vírus, uma vez que o exame não deixa claro se foram produzidos ou não anticorpos neutralizantes, capazes de evitar que o novo coronavírus entre na célula humana. A presença no sangue de IgG, destacam especialistas, não está necessariamente relacionada à existência de anticorpos neutralizantes.

O primeiro estudo a mostrar a possibilidade de uma resposta celular humana vigorosa contra o novo coronavírus, de acordo com o imunologista Edecio Cunha-Neto, do InCor e FM-USP, foi publicado em maio na revista Cell por cientistas do Instituto de Imunologia de La Jolla, em San Diego, Califórnia, nos Estados Unidos. 

Além de observar uma forte resposta celular a proteínas que simulavam o Sars-CoV-2 em um grupo de 20 adultos que se recuperaram da Covid-19, eles também viram que havia uma reação positiva de 40% das amostras de sangue retiradas em 2019, antes da disseminação da Covid-19, usadas no estudo como controle. Ou seja, havia uma resposta imune celular a peptídeos – fragmento de proteínas – que se assemelhavam aos peptídeos do novo coronavírus no sangue de pessoas que nunca haviam tido contato com o vírus.

“A única forma de explicar isso é que essas células T de memória nesses indivíduos apareceram depois de um contato com um patógeno muito parecido”, diz Cunha-Neto. “Esse patógeno existe: é o coronavírus endêmico ou sazonal, o que causa resfriado leve.” De acordo com o pesquisador, cerca de 50% da sequência das proteínas dos coronavírus endêmicos é idêntica ao Sars-CoV-2. “O trabalho da Universidade de Estrasburgo já havia observado uma reatividade intensa e frequente a coronavírus endêmicos em todos os parentes que contraíram a Covid-19 e em 80% das pessoas saudáveis testadas”, diz Cunha-Neto.

Em comentário publicado na Nature Reviews Immunology em 7 de julho, os cientistas Alessandro Sette e Shane Crotty, coautores do artigo da Cell, sustentam que mais de 90% da população humana é soropositiva para ao menos três dos quatro tipos de coronavírus endêmicos que circulam pelo mundo. E que a resposta cruzada de células T de memória seria capaz de interferir em resultados de vacinação, podendo levar, por exemplo, a uma resposta imune melhor ou mais rápida. Por outro lado, destacam os pesquisadores, pode ser um fator de confusão especialmente para os ensaios de fase 1 no desenvolvimento de vacinas. Isso porque os testes dessa fase são feitos com grupos menores de pessoas e o fato de os indivíduos terem ou não células com memória decorrentes do contato com coronavírus endêmicos poderia levar a diferentes conclusões.

Para tentar evitar a resposta cruzada e verificar se há mesmo uma imunidade celular específica e eficaz ao novo coronavírus, Cunha-Neto e seu grupo de pesquisa preparam um experimento no qual vão selecionar os peptídeos usados para verificar a resposta celular, separando as partes que são exclusivas ao Sars-CoV-2 dos trechos idênticos aos dos outros coronavírus. “Só assim poderemos dizer se há mesmo pacientes com Covid-19 soronegativos e com resposta celular específica ao Sars-CoV-2 e qual sua proporção”, diz o pesquisador. Se comprovado, isso pode indicar que avaliações de infectados/imunes somente usando testes de anticorpos subestimam o número real de infectados com o patógeno, sustenta Cunha-Neto.

“Enquanto a produção de grandes quantidades de anticorpos ocorre apenas antes da eliminação do vírus, e depois seus níveis se reduzem no sangue ou até ficam indetectáveis, as células T de memória persistem por décadas”, afirma. Ele explica que pacientes que contraíram a Síndrome Respiratória Aguda Grave (Sars) quase 20 anos atrás, causada pelo Sars-CoV-1, “primo” do Sars-CoV2, têm poucos anticorpos, mas quantidades consideráveis de linfócitos T de memória ao vírus original, que se ativam vigorosamente após novo contato com o antígeno. “Imagina-se hoje que a memória e a defesa de longo prazo contra o Sars-CoV-2 dependam muito dos linfócitos T. Assim, uma vacina eficaz teria que induzir a produção tanto de anticorpos neutralizantes, ou não, quanto de linfócitos T CD4+ e CD8+.”

Também no InCor, Kalil desenvolve pesquisa com 220 convalescentes que tiveram a doença e eliminaram o vírus. Ele estuda a resposta de anticorpos e de linfócitos T a fim de definir alvos específicos para o desenvolvimento de uma vacina brasileira. “Provavelmente vamos trabalhar em nosso imunizante com partículas semelhantes ao vírus, chamadas VLP. Estamos estudando para ver o que poderá induzir uma melhor memória imune”, afirma o especialista. “Não queremos usar a proteína inteira da espícula viral [as projeções que revestem o patógeno], mas tirar fragmentos para provocar uma resposta equilibrada de células de defesa T e B, produtoras de anticorpos.” Com sorte e muito trabalho, será uma peça a mais para ajudar na montagem do quebra-cabeça da imunidade contra o novo coronavírus.Batalhão orquestrado
Entenda como o organismo reage quando é atacado por um patógeno desconhecido

A primeira resposta do sistema imunológico contra a infecção pelo Sars-CoV-2, assim como por novos vírus e bactérias, vem  da chamada imunidade inata, que é mais genérica e nasce com todo ser humano. “Se alguém tem uma resposta inata muito forte e elimina o vírus, ela nem vai ter sinal de que se infectou”, diz o imunologista Edecio Cunha-Neto, do Instituto do Coração (InCor).

Quando a imunidade inata não aniquila em poucos dias o patógeno, o organismo ativa a chamada imunidade adaptativa, que é mais específica e varia conforme as experiências do indivíduo com microrganismos patogênicos, gerando uma memória imune. A imunidade adaptativa envolve tanto anticorpos, produzidos pelas células ou linfócitos B – a chamada imunidade humoral –, quanto os linfócitos T, a imunidade celular. As primeiras a serem ativadas quando a inata não resolve a questão são as células T CD4+. “Quando isso ocorre, elas agem diretamente sobre o patógeno, ativam células T CD8+ citotóxicas ou ativam os linfócitos B”, diz Cunha-Neto. 

Os linfócitos T CD8 citotóxicos ativados pelas células T CD4+ tornam-se capazes de destruir as células já infectadas pelo patógeno, enquanto os anticorpos neutralizantes impedem a entrada do vírus nas células saudáveis. “Na maior parte dos casos, antes de ter um anticorpo específico para o vírus, tem-se uma célula T específica”, explica o pesquisador do InCor. Às vezes, o vírus é eliminado antes de qualquer produção de anticorpos, que levam cerca de 7 a 14 dias para aparecer.

Os anticorpos do tipo imunoglobulina M (IgM) são produzidos na fase aguda da infecção e os do tipo imunoglobulina G (IgG) aparecem depois, quando em tese a pessoa já estaria protegida – para cada patógeno diferente que ataca o organismo são produzidos anticorpos (IgG, IgM etc.) específicos para aquele invasor. Existem, ainda, três outras classes de imunoglobulina: IgA, IgE e IgD (ver infográfico).

Dependendo do tipo de vírus, os níveis de IgG permanecem detectáveis por meses ou anos. Mas, aparentemente, não é isso o que vem ocorrendo no caso do Sars-CoV-2 – algumas pesquisas apontaram que eles podem desaparecer em duas ou três semanas.

Em artigo ainda não revisto pelos pares publicado em junho na plataforma medRxiv, pesquisadores da Universidade Yale, nos Estados Unidos, descrevem os resultados de um estudo longitudinal nos quais acompanharam ao longo do tempo 103 pacientes positivos para a Covid-19, comparando com 108 indivíduos para controle, negativos para a doença, observando a resposta imunológica ao vírus e a trajetória clínica de cada um. 

As duas principais conclusões foram a de que um quadro clínico mais grave está associado não só à carga viral mais intensa e prolongada, mas a uma disfunção da resposta imune, que em um primeiro momento é mais lenta para controlar o Sars-CoV-2 e depois acaba ativando uma resposta inflamatória exagerada; e que há marcadores imunológicos presentes no sangue já na fase inicial da doença capazes de predizer a trajetória clínica.

“Isso poderá auxiliar no direcionamento do tratamento e de intervenções clínicas”, diz a imunologista brasileira Carolina Lucas, primeira autora do artigo, que atualmente faz pós-doutorado em Yale. “Esse estudo mostra que é importante não só focalizar no controle do vírus, mas também no controle da resposta inflamatória excessiva.”¨C33C¨C34C

Projetos
1. Estudo de coorte prospectiva para avaliação de aspectos clínicos, virológicos e de resposta do hospedeiro em pacientes com Covid-19 (nº 20/05110-2); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisador responsável Reinaldo Salomão (Unifesp); Investimento R$ 143.100,20.
2. INCT 2014: Investigação em imunologia (nº 14/50890-5); Modalidade Projeto Temático; Pesquisador responsável Jorge Elias Kalil Filho (USP); Investimento R$ 3.980.221,36.
3. Desenvolvimento de vacina anti-Sars-CoV-2 utilizando VLPs (nº 20/05146-7); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; ¨C46C Gustavo Cabral de Miranda (USP); ¨C47C R$ 178.100,00.
¨C48C Mapeamento de epítopos do vírus Sars-CoV-2 para linfócitos T e do receptor da proteína spike para linfócitos B (nº 20/05256-7); ¨C49C Auxílio à Pesquisa – Regular; ¨C50C Jorge Elias Kalil Filho (USP); ¨C51C R$ 154.865,00.

Artigos científicos
LONG, Q. et al. Clinical and immunological assessment of asymptomatic Sars-CoV-2 infections. Nature Medicine. 18 jun. 2020.
SEOW, J. et al. Longitudinal evaluation and decline of antibody responses in Sars-CoV-2 infection. medRxiv (preprint). 11 jul. 2020.
GALLAIS, F. et al. Intrafamilial exposure to Sars-CoV-2 induces cellular immune response without seroconversion. medRxiv (preprint). 22 jun. 2020.
SEKINE, T. et al. Robust T cell immunity in convalescent individuals with asymptomatic or mild Covid-19. bioRxiv (preprint). 29 jun. 2020.
GRIFFONE, A. et al. Targets of T cell responses to Sars-CoV-2 coronavirus in humans with Covid-19 disease and unexposed individuals. Cell. 14 mai. 2020.
LUCAS, C. ¨C63C. Longitudinal immunological analyses reveal inflammatory misfiring in severe Covid-19 patients. ¨C64C. 27 jun. 2020.Republicar

Este texto foi originalmente publicado por Pesquisa FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.

Seleção de matéria:

Bióloga Blanche Sousa Levenhagen
Fones: (11) 99440 3848 / 99191 2710
blanche@ecobioconsultoria.com.br
ricardo @ecobioconsultoria.com.br
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Desenvolvemos diversos serviços na área ambiental. Dentre eles estão:
– Laudos de fauna com forme Decisão de Diretoria CETESB nº 167/2015,
– Laudo de Caracterização de Vegetação, conforme Resolução CONAMA 01/94;
– Levantamento cadastral arbóreo conforme legislação municipal e – Decisão de Diretoria CETESB nº 287/2013
– Licenciamento ambiental municipal, CETESB e IBAMA,
– Regularização ambiental,
– Projetos de recuperação de área degradada,
– Projetos de compensação ambiental (restauração ecológica) conforme – Resolução SMA nº 32/2014 e Resolução SMA nº 07/2017,
– PGRCC (Plano de gerenciamento de Resíduos de Construção Civil),
– PGRS (Plano de Gerenciamento de Resíduos Sólidos)
– TCRA (Termo de compromisso de recuperação ambiental), TAC (Termo de ajustamento de conduta), TCA (Termo de compromisso ambiental),
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Estado de São Paulo registra aumento de 4,9% na área de vegetação nativa – Metade dos municípios paulistas tem até 15% de matas e campos naturais, indica Inventário Florestal

Fonte: Revista FAPESP

No Parque Estadual Carlos Botelho, no sudeste paulista, predomina a floresta ombrófila densa, a forma da Mata Atlântica com maior área no estado (11%)

Eduardo Cesar

Ilhabela, Iporanga e Pedro de Toledo emergiram como os municípios paulistas com maior área de vegetação nativa, respectivamente com 94,1%, 90,9% e 90%, de acordo com a versão mais recente do Inventário florestal do estado de São Paulo, lançada nesta quinta-feira (23/7). Inversamente, São Caetano do Sul, Cruzália e Pedrinhas Paulista são os com menor cobertura vegetal, respectivamente com 1,6%, 3,7% e 3,9%.

A vegetação nativa continua concentrada na serra do Mar, cujo relevo dificulta a ocupação urbana e a agricultura, e é escassa a oeste do estado. Porém “a regeneração florestal já é maior que o desmatamento”, observa o físico Marco Aurélio Nalon, pesquisador do Instituto Florestal de São Paulo (IF) e coordenador do inventário, realizado pela empresa GeoAmbiente, de São José dos Campos, com financiamento da Câmara de Compensação Ambiental do estado.

A quarta versão do levantamento – a primeira saiu em 1990 – indicou que as diversas formas de Mata Atlântica e de Cerrado cobrem no máximo 15% da superfície de metade (54%) dos 645 municípios paulistas (ver gráfico abaixo).

Este texto foi originalmente publicado por Pesquisa FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.

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