O Monumento Natural das Ilhas Cagarras, no RJ, é reconhecido internacionalmente como santuário da biodiversidade

Fonte: site conexaoplaneta

Suzana Camargo

O Monumento Natural das Ilhas Cagarras é a primeira Unidade de Conservação Marinha de Proteção Integral da cidade do Rio de Janeiro. Apesar de estar localizado a apenas 5 km da praia de Ipanema, ou seja, tão próximo do centro urbano, o local é um importante corredor migratório de baleias e habitat de centenas de espécies marinhas raras, endêmicas e também, em risco em extinção. Já foram registradas ali mais de 600 espécies de animais e plantas. E se não bastasse tudo isso, ainda abriga um sítio arqueológico tupiguarani.

Por causa de toda sua importância ambiental e cultural, as Ilhas Cagarras e as águas em seu entorno acabam de receber o título internacional de “Hope Spot” – “Pontos de Esperança”, como é chamado em português -, que reconhece sua diversidade, importância e também risco em que se encontram e que, por isso, merecem atenção do poder público e da sociedade para que se mantenham conservados.

O título foi concedido pela Mission Blue, aliança internacional para conservação marinha, liderada pela renomada oceanógrafa Sylvia Earle.

Agora, oMonumento Natural das Ilhas Cagarras aparece numa lista de outros 130 lugares do mundo, entre eles, as Ilhas de Galápagos, no Equador, e a Grande Barreira de Coral, na Austrália. O Arquipélago de Abrolhos é o único outro ecossistema brasileiro que está entre os “Pontos de Esperança” da Mission Blue.

O Monumento Natural das Ilhas Cagarras, no RJ, é reconhecido internacionalmente como santuário da biodiversidade

Espécie de bromélia observada no arquipélago

Projeto Ilhas do Rio foi o responsável por apresentar a candidatura das Ilhas Cagarras junto à comissão científica da organização.

“Me debrucei sobre as informações e resultados de pesquisa do Projeto Ilhas do Rio e percebi que a Unidade de Conservação e suas águas no entorno atendiam a praticamente todos os critérios da Mission Blue para nomeação de um Hope Spot”, conta a bióloga Aline Aguiar, responsável técnica do Projeto Ilhas do Rio/Instituto Mar Adentro. “É um local muito especial, pois mesmo tão próximo de uma grande metrópole ainda funciona como refúgio da biodiversidade. Suas águas protegidas ajudam na recuperação de populações de peixes, crustáceos e moluscos, muitos de importância comercial”, ressalta.

O Monumento Natural das Ilhas Cagarras, no RJ, é reconhecido internacionalmente como santuário da biodiversidade

O caranguejo-de-coral

As águas no entorno das Ilhas Cagarras que também foram incorporadas à região delimitada como Hope Spot incluem desde as praias da Zona Sul carioca, como Leblon e Copacabana, até a entrada da Baía de Guanabara, a Ilha de Cotunduba e a Praia Vermelha.

O selo internacional é um aliado não somente para chamar ainda mais a atenção sobre a necessidade de proteção a esta área tão rica, mas também, como promovê-la através do ecoturismo.

Preservação e novas descobertas

Há uma década pesquisadores da Projeto Ilhas do Rio monitoram a região e fazem um trabalho importantíssimo para a conservação de espécies e seus habitats. Ao longo desses anos, realizaram descobertas curiosas, como uma espécie de perereca que só existe ali; e uma espécie de árvore, a Gymnanthes nervosa, que não era encontrada no município do Rio de Janeiro desde 1940.

Também foram catalogadas esponjas do mar com propriedades medicinais, como a Petromica citrina (ou esponja-dourada), e outras ameaçadas, como a esponja-carioca Latrunculia janeirensis.

O Monumento Natural das Ilhas Cagarras, no RJ, é reconhecido internacionalmente como santuário da biodiversidade

Macaquinho-cabeça-preta

Entre os cetáceos observados nas Ilhas Cagarras estão golfinho-flíper, golfinho-de-dentes-rugosos, orca, baleia-de-bryde, baleia-jubarte e baleia-franca-austral.

Muitas espécies são endêmicas da região, ou seja, só existem ali e em nenhum outro lugar do mundo

Outra ação de destaque feita pelo time do projeto é em relação à vegetação da Ilha Comprida. Ela foi tomada pelo capim-colonião, uma espécie invasora africana, que acaba com a flora local nativa. Aos poucos, o capim tem sido retirado e nos últimos sete anos foram plantadas 350 mudas de quatro espécies nativas, entre elas, a aroeira (Schinus terebinthifolius), que cresceu bem no local. Já podem ser vistas várias árvores dela, com mais de 3 metros de altura e frutos.

O Monumento Natural das Ilhas Cagarras, no RJ, é reconhecido internacionalmente como santuário da biodiversidade

O título de “Hope Spot” pode impulsionar o ecoturismo na região

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Fotos: @Athila Bertoncini (aérea destaque no mosaico/caranguejo-de-coral, coral cor de rosa, peixes) e Fernando Moraes (bromélia)

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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“Durante a pandemia vi nascer um grande engajamento nas pessoas”

Fonte: Revista Pesquisa FAPESP

A biomédica Mellanie Fontes Dutra criou a Rede Análise Covid-19 e atua na disseminação de informação sobre a pandemia, enquanto mantém pesquisa em neurociênciaDurante a pandemia, boa parte do trabalho passou a ser feita em casa

Arquivo pessoal


Depoimento concedido a Maria Guimarães


14:00
20 jun 2021


MedicinaNeurociência

Trabalho com neurodesenvolvimento em modelos animais, uma pesquisa básica que requer manejo dos animais e experimentação. Tem uma conexão com infecções virais, bacterianas e outros eventos, que podem acontecer durante a gestação, afetando momentos específicos da formação do embrião e vir a ter consequências depois do nascimento. Minha rotina era presencial, mesmo em fins de semana e feriados.

Fazemos experimentos de comportamento animal, análises bioquímicas e histológicas – atividades que exigem presença no laboratório, mas com a pandemia ele passou inicialmente a ser remoto, com foco nas atividades a terminar, envolvendo análise de dados e escrita de artigos. Além disso, muitos de nós começamos a criar estratégias para o uso de ferramentas de biologia computacional para continuar a pesquisa. Seguimos desenvolvendo um bom trabalho, mesmo com a presença na universidade muito reduzida. Minha aluna de mestrado iniciou a pós-graduação no início da pandemia e já delineamos o projeto com o uso dessas ferramentas. É possível fazer modelagem, estudar bancos de dados, elaborar análises a partir deles. Essas técnicas passaram a ser muito atrativas em virtude do distanciamento social e da redução do trabalho presencial e complementam nossas linhas de pesquisa. Orientação, coorientação e pesquisa são minhas atividades principais, em tempo integral como pesquisadora na universidade. No meu tempo livre, faço divulgação.

Tenho um pé na comunicação científica desde 2015, participando de eventos como o Pint of Science, a Semana Nacional do Cérebro. A partir da pandemia, veio a necessidade de migrar essa atividade para as redes sociais. Em virtude da desinformação que apareceu, ficou ainda mais necessário tornar as informações mais acessíveis e fazer checagem de fatos. Apesar do meu conhecimento não ser específico para vírus e vacinas, toda a minha trajetória multidisciplinar, estudando imunologia e outras disciplinas, me permite olhar para os trabalhos e torná-los acessíveis para a pessoa leiga, sem perder o rigor científico. Toda a minha formação foi no ensino público, então acho necessário devolver à sociedade e mostrar que a pesquisa brasileira capacita os pesquisadores para atuar de diferentes formas.

Foi um movimento natural que me levou, no fim de fevereiro de 2020, a idealizar a Rede Análise Covid-19, que tem por princípio analisar, compilar dados da pandemia e, sobretudo, criar conteúdo acessível para que as pessoas entendam o contexto em que estamos inseridos, juntamente com a checagem de fatos sempre que alguém nos traz uma dúvida. Começamos no Twitter e é onde crescemos mais. Hoje estamos também no Instagram, que cresce graças a membros dedicados especialmente a ele. Temos também um grupo no Facebook, onde geramos discussões e mostramos análises. Neste início de junho estamos vendo a aceleração de novos casos, a reversão da tendência de queda em muitos locais. Se começarmos de fato a ganhar aceleração em uma nova subida, será a partir de um patamar elevado, o que pode ser muito problemático. Temos chamado a atenção para isso.

Comecei criando um grupo de WhatsApp para discutir a ideia de criar um espaço para organizar pesquisadores e profissionais para a discussão de dados da pandemia. Chegamos a ter 200 pessoas, sem organização definida. Então criamos grupos de trabalho: para divulgação científica, coleta, análise e modelagem epidemiológica e populações vulneráveis. Começamos a ver onde cada profissional se enquadraria melhor e como gostariam de contribuir.

Esses grupos atuam de forma independente, embora colaborativa, então cada conjunto de coordenadores pode desenvolver projetos e criar estratégias dentro dos seus grupos de trabalho, enquanto um grupo geral discute e toma decisões pela rede. Temos mais de 40 membros com 10 coordenadores, contribuindo na mídia e atuando em redes de redes, que é o mais interessante de tudo: poder contar com outras redes que surgiram ao mesmo tempo e são grandes parceiras.

Temos membros em todas as regiões do país, mas perdemos pessoas do Norte depois do agravamento da pandemia que aconteceu lá. Muitos são profissionais da saúde e trabalham na linha de frente, precisaram atender integralmente as questões da região. Cada um desses membros traz uma visão muito particular do que é viver a pandemia no seu lugar de origem. Com isso, temos uma visão macro e ao mesmo tempo micro: ter uma ponte com esses locais ajuda a conseguir microdados específicos de cada região, até de municípios. Assim podemos ajudar as pessoas que nos trazem demandas e podem oferecer análises para os prefeitos e gestores locais. Gosto de ver nossos membros também como satélites que nos ajudam a chegar ainda mais longe no enfrentamento.

Não conseguimos atender a todas as demandas, buscamos priorizar o que é mais urgente e precisa ser feito imediatamente. Temos estratégias de organização para tentar abraçar o máximo possível de questões. Nosso trabalho é voluntário, todos fazemos no tempo livre, nas brechas. Não precisamos pedir nada, os integrantes da rede veem o que precisa ser feito e fazem. É difícil conciliar isso com tantas pessoas, sou muito grata. Durante a pandemia vi com meus olhos nascer um grande engajamento nas pessoas.

Trabalho mais no grupo de divulgação científica, fazendo contribuições nos demais grupos. Meu principal papel na rede é fazer uma ponte entre coordenadores e membros. Cada grupo tem suas próprias metas e objetivos, mas gosto de fazer esse papel para ver para onde a rede quer ir, como um todo.

Desde o ano passado, o Twitter se tornou uma rede muito importante de compartilhamento de informações. A ponto de a CPI [Comissão Parlamentar de Inquérito] da Covid-19 estar atenta – os senadores põem vídeos, comentam conteúdos que as pessoas levantam. Vemos no Twitter muitos pesquisadores, muitos profissionais que as pessoas buscam para seguir. É um lugar de troca, de discussão científica. Tem informações que encontro ali antes de ver na mídia e pesquisadores que, mal mandam um artigo para submissão, já compartilham alguns dados. Virou um lugar estratégico para obter informação, mas é preciso ter senso crítico para isso, porque a desinformação circula de maneira até mesmo mais rápida que a informação. Temos contato com a equipe do Twitter Brasil, do Facebook e do Instagram – eles estão muito engajados na luta contra a desinformação e em dar espaço e visibilidade para quem tenta levar uma mensagem informativa adiante.

Seria ideal podermos entrar nas bolhas onde circula desinformação e mostrar que a informação não é político-partidária. Fico feliz porque criei estratégias para que a pessoa perceba que meu conteúdo está acima disso. Trago dados: o que o artigo quer dizer e a implicação daquilo para a sociedade. Consigo dialogar com pessoas que têm ideologias muito diferentes da minha, criando um local de comunicação não agressiva e de respeito. Quando dá certo, esses diálogos são pequenas grandes vitórias, porque vemos que a pessoa sai diferente: abandona o discurso agressivo, começa a ir atrás de informação para nos rebater e até a se questionar sobre o que tinha dito no início. Se conseguirmos pôr o benefício da dúvida em uma pessoa por dia, são 365 em um ano.

Vejo como muito inusitado o reconhecimento que recebi por essa iniciativa. A visibilidade me dá acesso a pessoas que antes não alcançaria. Consegui montar uma rede de contatos muito legal, incluindo pesquisadores que demoraria anos para conhecer, se dependesse de nos encontrarmos em algum congresso. São jornalistas, pesquisadores, comunicadores e especialistas do Brasil todo e várias partes do mundo. Essa rede vai continuar a existir, se adaptando às questões que seguiremos tendo que enfrentar.

Felizmente tenho condições boas de trabalho. Durante a pandemia consegui juntar dinheiro e investir em uma webcam um pouco melhor, em um teclado, alguns componentes que cabem no meu orçamento e ajudam a melhorar minhas transmissões, streamings, lives. Também tenho um ambiente de muito apoio e parceria em casa. Moro com meus pais e minha irmã, dividimos as tarefas domésticas. Estamos trabalhando sete dias por semana, então nos ajudamos, um cobre o outro. Se um não conseguir ajudar em uma semana, pode compensar quando puder. Todos entendemos o momento de trabalho uns dos outros.

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Nova espécie de libélula é descoberta em São Carlos

Fonte: site ciclovivo

Biólogo e professor descobriram inseto no campus da Ufscar.Por Redação CicloVivo -15 de junho de 2021

libélula inseto
Foto: Rhainer Guillermo Nascimento Ferreira | Ufscar

Um professor e um biólogo da Universidade Federal de São Carlos (UFScar), no interior paulista, descobriram uma nova espécie de libélula. O inseto foi encontrado, em uma pesquisa de campo, em um fragmento de mata de cerrado no próprio campus da instituição.

Conhecido popularmente como lavadeira ou donzelinha, o inseto foi visto na área do córrego do Espraiado, no campus da Ufscar, pelo professor Rhainer Guillermo Nascimento Ferreira, do Departamento de Hidrobiologia (DHb) e pelo biólogo da UFScar e mestrando em entomologia pela Universidade de São Paulo (USP), Rodrigo Roucourt Cezário.

“Nós do laboratório trabalhamos há alguns anos no córrego do Espraiado e, um certo dia, percebi um macho dessa espécie pousado em uma árvore alta. Não conseguia capturá-lo para examiná-lo, mas a pulga ficou atrás da orelha porque uma espécie desse gênero azul é algo raro”, disse o professor Ferreira.

“Comentei com meu aluno de mestrado, Rodrigo Cezário, que provavelmente tínhamos uma espécie nova no local, mas nunca encontramos de novo. Até que, no ano passado, Rodrigo encontrou vários em um mesmo dia, inclusive fêmeas”, acrescentou.

De acordo com ele, as características que diferenciam a nova espécie das demais libélulas são muito específicas, mas a coloração azul do inseto é um aspecto que pode ser notado pelo público em geral. “Não se trata de uma característica exclusiva, mas a grande maioria das espécies desse gênero tem um tom ocre amarelado”, disse.

Atualmente há mais de 6 mil espécies de libélulas no mundo. No Brasil, são mais de 700 espécies registradas. Segundo o professor, o inseto é um predador voraz na sua fase larval aquática, quando consome larvas de mosquitos e outros animais pequenos, e também quando adultas. “São as grandes responsáveis por controlar populações de outros insetos e manter o equilíbrio ecológico. Além disso, são muito sensíveis à poluição das águas e ao desmatamento, sendo utilizadas como bioindicadores e espécies bandeira para a conservação do Cerrado, da Mata Atlântica e da Amazônia”, destacou Ferreira.

A nova espécie foi batizada como Heteragrion gorbi, em homenagem ao professor Stanislav Gorb, da Universidade de Kiel, na Alemanha, pesquisador de libélulas. O artigo inédito sobre o estudo, que contou com apoio financeiro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), está disponível na íntegra na plataforma aberta Europe PMC.

Por Bruno Bocchini | Agência Brasil

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Estudo em Serrana indica controle da epidemia após 75% de adultos imunizados

Fonte: revista Pesquisa FAPESP

Aplicação em massa da CoronaVac em cidade paulista levou a uma redução de 95% no número de mortes e de 86% nas internações decorrentes da Covid-19Aplicação de segunda dose da CoronaVac em voluntário do estudo

Avacinação completa de 75% da população adulta de Serrana, município de 45 mil habitantes no interior de São Paulo, foi suficiente para controlar a epidemia do novo coronavírus na cidade. O anúncio foi feito por autoridades do governo paulista e do Instituto Butantan em entrevista coletiva na segunda-feira (31/05) para divulgar os resultados da pesquisa científica que avaliou a efetividade da CoronaVac, imunizante desenvolvido pela farmacêutica chinesa Sinovac Biotech.

“As mortes caíram 95%, as internações recuaram 86% e os casos sintomáticos foram reduzidos em 80%”, disse o governador João Doria durante a coletiva. “É possível controlar a epidemia através da vacinação. Não precisamos isolar, ilhar ou impedir o trânsito de pessoas para controlar a epidemia. A chave é a vacinação”, enfatizou o infectologista Ricardo Palacios, diretor médico de ensaios clínicos do Instituto Butantan e um dos idealizadores da investigação.

Batizado de Projeto S, o estudo coordenado e financiado pelo Butantan, com apoio da FAPESP, vacinou 27.160 moradores de Serrana com as duas doses do imunizante ao longo de oito semanas entre 14 de fevereiro e 10 de abril. O número equivale a 95,7% do público-alvo, composto pelos habitantes com 18 anos ou mais. O município foi dividido em 25 subáreas, formando quatro grandes grupos populacionais que receberam o imunizante em semanas sucessivas. Quando o terceiro grupo tomou a segunda dose, a disseminação do vírus foi controlada, de acordo com os autores da pesquisa, o que significa que a imunização de cerca de 75% da população-alvo – no caso, adultos maiores de 17 anos – parece ter sido suficiente para barrar a pandemia.

Sala de controle das operações do Projeto S, montada em uma escola do municípioInstituto Butantan

Todas as vacinas foram doadas ao projeto pela Sinovac. “Poucos programas de vacinação do mundo têm um valor tão expressivo [de cobertura vacinal]. E mostra mais uma vez: a população quer ser vacinada”, disse o médico Marcos de Carvalho Borges, pesquisador principal do Projeto S e diretor-geral do Hospital Estadual Serrana, ao apresentar os dados de cobertura vacinal na cidade.

De acordo com as autoridades, foram aplicadas 54.882 doses de CoronaVac e registrados 67 eventos adversos graves, mas nenhum relacionado à vacinação. Segundo Borges, qualquer situação com alguma gravidade que ocorra com um voluntário depois de ele ser imunizado é registrada no estudo como evento adverso grave. “Por exemplo, a pessoa tomou a vacina e, duas semanas depois, bateu o carro. Isso é um evento adverso grave, mas não tem nenhuma relação causal com a vacina”, afirmou. Após a primeira dose, 4,4% relataram reações, porém apenas 0,02% de grau 3 (mialgia e cefaleia), que interferiu nas atividades do dia a dia. Após a segunda dose, houve 0,2% de relatos de reações adversas, mas nenhuma de grau 3 ou superior. “Isso reforça que a vacina é muito segura”, comentou Borges.

Entre os vacinados foram registrados oito óbitos por Covid-19. Sete deles, no entanto, haviam tomado apenas a primeira dose. A partir de 15 dias da segunda inoculação não foi registrada nenhuma morte e houve apenas duas internações em decorrência da Covid-19 (ver infográfico). Na avaliação imunológica feita da população antes de iniciar o estudo, os pesquisadores verificaram que 25,7% dos moradores da cidade já haviam sido expostos ao vírus.

Imunidade indireta
O grande marco temporal utilizado pelo estudo foi a semana epidemiológica 14, que foi de 4 a 10 de abril, quando a segunda fase de vacinação foi concluída em todos os grupos da cidade. “Quando comparado o período até terminarmos a intervenção, na semana 14, com o período posterior, nós encontramos uma redução de casos sintomáticos geral, em toda a cidade de Serrana, independentemente de as pessoas tomarem ou não a vacina, de 80%”, disse o infectologista Ricardo Palacios, acrescentando que houve uma diminuição geral nas internações de 86% e de 95% nas mortes (ver infográfico). “Isso reflete a somatória do efeito direto das pessoas que recebem a vacina e, portanto, estão se protegendo, e o efeito indireto, que é a redução da transmissão do vírus porque temos pessoas vacinadas na comunidade.”

A sincronização na queda de casos sintomáticos e hospitalizações entre vacinados e não vacinados na cidade, segundo Palacios, é um marcador do efeito indireto da imunização. “Essa é a evidência da proteção indireta, que tem sido também chamada de imunidade coletiva, mas que eu prefiro usar o termo de imunidade indireta, porque é uma forma em que quem recebe a vacina também está ajudando a proteger o outro.”

A incidência de casos sintomáticos e hospitalizações de crianças e adolescentes abaixo de 18 anos apresentou, igualmente, queda, mesmo que essa faixa etária não tenha sido vacinada. “Esse dado é extremamente importante, porque, em outras vacinações, quando se implementa por faixa etária, um dos efeitos que pode acontecer é que você vai empurrando a infecção para aquelas faixas etárias que não foram vacinadas. O que vimos foi um efeito protetor. Vacinar os adultos vai criando essa espécie de barreira de proteção, um casulo, sobre as crianças”, afirmou Palacios, ressaltando a relevância da informação para as discussões sobre retomada das aulas presenciais no país. “Não será necessário vacinar as crianças para retomar as atividades escolares.”

A imunização em massa também levou à queda no número de internações de idosos acima de 70 e de 80 anos. “O efeito da vacina é tão forte que consegue proteger até mesmo aqueles que por algum motivo não foram vacinados, mesmo nas faixas etárias mais avançadas”, disse Palacios. Os dados brutos da pesquisa serão apresentados posteriormente, informou Dimas Covas, diretor do Instituto Butantan: “Essa é uma publicação esperada no mundo inteiro. Esses dados todos serão publicados não em um, mas seguramente em mais de um trabalho, porque a quantidade de experiências que foram absorvidas aqui é numerosa”.

Os pesquisadores também compararam os dados de Serrana com os de 16 municípios da região, entre eles Brodowski, Jardinópolis e Cravinhos. “Vemos o reflexo de uma epidemia descontrolada na região. Em geral, a microrregião de Ribeirão Preto está sofrendo enormemente e isso não está acontecendo em Serrana”, ressaltou Palacios. O infectologista salientou que há um trânsito contínuo de pessoas entre as cidades, pois quase um quarto da população de Serrana tira o seu sustento de trabalhos em Ribeirão Preto. “Serrana é um lugar que está exposto constantemente a lugares onde o vírus está circulando de forma muito importante e, mesmo assim, tem a epidemia sob controle.”

Proteção contra a P1
A vacinação do Projeto S ainda coincidiu com a introdução na região da variante P1, predominante no país, e os resultados foram animadores. “Essa é uma reconfirmação de algo que já sabíamos, de que a vacina é efetiva em relação à variante P1”, disse Palacios. Amostras dos vírus foram sequenciadas pelo Hemocentro de Ribeirão Preto, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP), que faz o monitoramento da região e, de acordo com o diretor do Butantan, não foi observado o surgimento de variantes novas locais.

Para o infectologista Esper Kallás, do Departamento de Moléstias Infecciosas e Parasitárias da Faculdade de Medicina da USP, em São Paulo, o apoio da população de Serrana, com a participação de mais de 95% do público-alvo na pesquisa, é extraordinário. “Alguns podem questionar se o que nós estamos vendo é somente uma onda [movimento natural de refluxo da pandemia] que está acontecendo em Serrana, mas olhar o seu entorno é testemunho de que o efeito da vacina é irrefutável. Isso mostra a eficácia e a segurança da vacina e o desempenho dela mediante as variantes”, disse, ao comentar os resultados do Projeto S. “É só dessa maneira que nós vamos conseguir enfrentar essa pandemia. Do contrário, vamos simplesmente claudicar nas ondas pandêmicas que virão.”

Projeto
Desenvolvimento de vacina contra a Covid-19 (n° 20/10127-1); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Políticas Públicas;Pesquisador responsável Dimas Tadeu Covas (Instituto Butantan); Investimento R$ 32.501.477,00.

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Desmatamento na Amazônia tem pior mês de maio já registrado

Fonte: Site ciclovivo

São 1180 km² com alertas de desmatamento em maio, mês com maior área de alertas em 2021 e o pior maio da série Deter-BPor Redação CicloVivo -7 de junho de 2021

desmatamento Amazônia
Foto: Felipe Werneck | Ibama

Dados do sistema DETER, do Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe), divulgados hoje mostram que os alertas de desmatamento na Amazônia seguem crescendo em ritmo alarmante. Os dados até o dia 28 de maio mostram um aumento de 41% na área com alertas de desmatamento em relação aos registrados em maio de 2020. Com 1.180 Km², foi o mês com maior área de alertas neste ano, e o maior maio da série Deter-B.

Somente neste ano, entre janeiro e maio, foram 2337 Km², um aumento na área de 14,6% em relação ao mesmo período do ano passado, apesar da cobertura de nuvens ter sido superior em 2021, de janeiro a maio, e apesar de ter chovido mais na região norte – o que em tese, deveria desacelerar o desmatamento.

No dia 31 de maio de 2021, o Instituto Nacional de Pesquisa Espaciais (Inpe), divulgou dados que apontam que o mês de maio deste ano também teve o pior índice de focos de calor na Amazônia e Cerrado, desde 2007. Os satélites mostram que na Amazônia foram 1.186 focos de calor, um aumento de 40,6% em relação ao ano passado. No Cerrado, foram 2.649 focos, uma alta de 78,8% em relação ao mesmo período de 2020.

“APÓS A DIVULGAÇÃO DO NÚMERO RECORDE DE QUEIMADAS NA AMAZÔNIA E CERRADO EM MAIO, OS ALERTAS DE DESMATAMENTO REFORÇAM AINDA MAIS O QUANTO UMA DAS MAIORES RESERVAS DE BIODIVERSIDADE NO PLANETA ESTÁ SENDO COLOCADA EM RISCO DIA APÓS DIA.”

Rômulo Batista, porta-voz da campanha de Amazônia do Greenpeace
Áreas desmatadas na Terra Indígena Karipuna, registradas em sobrevoos em setembro de 2020. Foto: Christian Braga | Greenpeace

“Além de um presidente e um ministro do meio ambiente atuando contra a proteção ambiental, o Congresso tem contribuído com essa política de destruição, enfraquecendo deliberadamente as leis que protegem a floresta e seus povos. O resultado de maio não poderia ser diferente já que os retrocessos na governança ambiental só aumentam”, explica Rômulo Batista, porta-voz da campanha de Amazônia do Greenpeace.

Ameaças legais

Ocupado com as investigações e inquéritos sobre o comércio internacional de madeiras, o ministro Ricardo Salles fechou os olhos para o controle do desmatamento, que segue a passos largos, inclusive em terras públicas.

Desmatamento amazônia
Foto: © Ibama

Enquanto isso o Congresso Nacional discute projetos de lei que vão piorar ainda mais a situação, à exemplo dos PLs 2633/2020 e 510/2021, que visam flexibilizar os critérios da regularização fundiária, o que na prática anistia grileiros, enquanto cerca de ⅓ do desmatamento na Amazônia é ocasionado por grilagem.

Além disso, os PLs 191/2020 e 490/2007 são um verdadeiro ataque aos povos indígenas e seus territórios, pois visam abrir terras indígenas para atividades predatórias como mineração e avanço do agronegócio.

“Ainda que estes projetos estejam em tramitação, já é suficiente para adicionar combustível às motosserras. Ao seguir permitindo que a Amazônia seja perdida dessa maneira, nossos governantes afetam também a oferta de serviços ecossistêmicos que ela proporciona à sociedade”, completa Rômulo.

“MANTER A SAÚDE DA FLORESTA É MANTER A NOSSA SAÚDE E NOSSO BEM-ESTAR, PRECISAMOS DE UMA VEZ POR TODAS ENTENDER QUE NÃO HÁ PROGRESSO OU DESENVOLVIMENTO POSSÍVEL SEM NATUREZA.”

Rômulo Batista, porta-voz da campanha de Amazônia do Greenpeace

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Cada dólar investido em restauração gera US$ 30 em benefícios econômicos

Fonte: site ciclovivo

Investir 0,1% do PIB mundial pode conter colapso ecossistêmico.

Por Redação CicloVivo -4 de junho de 2021

restaurar ecossistemas
Foto: Nate Johnston | Unsplash

Para enfrentar a tripla ameaça da mudança climática, perda da natureza e poluição, o mundo deve restaurar pelo menos 1 bilhão de hectares degradados de terra na próxima década. A área equivale ao tamanho da China. E um plano semelhante será preciso para salvar os oceanos.  

Essa é uma das conclusões do novo relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, Pnuma, e da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, FAO.

A pesquisa marca o início da Década das Nações Unidas da Restauração de Ecossistemas 2021-2030.  

Custo

Segundo o relatório, a humanidade está usando cerca de 1,6 vezes a quantidade de serviços que a natureza pode fornecer de forma sustentável. Isso significa que os esforços de conservação são insuficientes para evitar o colapso do ecossistema e a perda da biodiversidade. 

Os custos globais de restauração terrestre, não incluindo os custos de restauração de ecossistemas marinhos, são estimados em pelo menos US$ 200 bilhões por ano até 2030.

“Se o mundo deseja atingir as metas de mudança climática, precisa fechar uma lacuna de financiamento de US $ 4,1 trilhões na natureza até 2050”, afirma o documento. O custo equivale a investir apenas 0,1% do PIB global a cada ano em agricultura restaurativa, florestas, gestão da poluição e áreas protegidas.

Foto: Florida Guidebook | Unsplash

Além de evitar o colapso, o relatório afirma que cada dólar investido cria até US$ 30 em benefícios econômicos. 

Os ecossistemas que requerem restauração urgente incluem fazendas, florestas, pastagens e savanas, montanhas, turfeiras, áreas urbanas, água doce e oceanos. Comunidades que vivem em quase dois bilhões de hectares degradados incluem algumas das áreas mais pobres e marginalizadas do mundo. 

No prefácio do relatório, a diretora-executiva do Pnuma, Inger Andersen, e o diretor-geral da FAO, Qu Dongyu, afirmam que o relatório “define o papel crucial desempenhado pelos ecossistemas, de florestas e terras agrícolas a rios e oceanos, e mapeia as perdas que resultam de uma gestão deficiente do planeta.” 

A degradação já está atingindo o bem-estar de cerca de 3,2 bilhões de pessoas, cerca de 40% da população mundial. 

Andersen e Dongyu contam que, a cada ano, o mundo perde “serviços ecossistêmicos que valem mais de 10% de produção econômica global.” Segundo eles, “ganhos massivos aguardam” o mundo, se estas tendências forem revertidas. 

Restauração 

A restauração de ecossistemas inclui muitas práticas, desde o reflorestamento até a reumidificação de turfeiras e a reabilitação de corais.  

Foto: Kimhiz | Pixabay

Estes esforços contribuem para o alcance de vários Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, ODSs, incluindo saúde, água limpa e paz e segurança, e para os objetivos das três “Convenções do Rio” sobre Clima, Biodiversidade e Desertificação. 

Estas ações são necessárias para cumprir a meta do Acordo de Paris de manter o aumento da temperatura global bem abaixo de 2º C. 

Combinada com a interrupção de novas conversões de ecossistemas naturais, a restauração pode ajudar a evitar 60% das extinções de biodiversidade previstas. 

A restauração também pode ser altamente eficiente na produção de vários benefícios econômicos, sociais e ecológicos simultaneamente. 

Ferramentas

Apenas a agrossilvicultura, por exemplo, tem o potencial de aumentar a segurança alimentar para 1,3 bilhão de pessoas. Investimentos em agricultura, proteção de manguezais e gestão da água ajudarão na adaptação às mudanças climáticas, com benefícios em torno de quatro vezes o investimento original. 

Segundo o relatório, o acompanhamento destes esforços é essencial, tanto para avaliar o progresso como para atrair investimentos públicos e privados. 

Em apoio a esse esforço, a FAO e o Pnuma lançaram ainda o Digital Hub para a Década da ONU, que inclui o Marco para o Monitoramento da Restauração de Ecossistemas. 

Foto: Eutah Mizushima | Unsplash

O Marco permite que os países e comunidades meçam o progresso dos projetos de restauração nos principais ecossistemas.  

O documento inclui a Plataforma de Iniciativas de Restauração de Terras Secas e uma ferramenta de mapeamento geoespacial interativa para avaliar os melhores locais para restauração florestal. 

As informações são da ONU News e Pnuma.

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Quando as crianças adoecem gravemente

Fonte: Revista Pesquisa FAPESP

Em síndrome rara, ação direta do novo coronavírus contribui para lesões em múltiplos órgãosUm em cada 50 mil crianças e adolescentes infectados pelo Sars-CoV-2 desenvolve uma inflamação disseminada no organismo


Ricardo Zorzetto / Edição 304 / jun. 2021


Mais de um ano após o início da pandemia, as crianças e os adolescentes parecem continuar menos suscetíveis do que os adultos à infecção pelo novo coronavírus. Nos Estados Unidos, o país mais acometido até o momento pelo Sars-CoV-2 e sobre o qual há mais informações, menos de 14% dos casos diagnosticados de Covid-19 – e uma proporção bem inferior a 1% das mortes – ocorreram em menores de 19 anos, segundo dados de maio deste ano da Academia Americana de Pediatria. Os indivíduos nessa faixa etária costumam apresentar quadros mais leves da doença, mas não estão livres de complicações graves. Um número muito restrito deles – da ordem de um em cada 50 mil – desenvolve uma inflamação disseminada pelo corpo que, se não for tratada a tempo, muitas vezes em unidades de terapia intensiva, pode ser fatal. Identificada no início da pandemia por médicos do Reino Unido, da Itália e dos Estados Unidos, essa enfermidade tornou-se conhecida como síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica (SIM-P) e vem sendo caracterizada por estudos que buscam diferenciá-la de problemas de saúde com sintomas semelhantes, como a doença de Kawasaki ou a síndrome do choque tóxico causada por infecção bacteriana.

Uma contribuição brasileira recente sugere que os danos em múltiplos órgãos observados na SIM-P não decorrem apenas da resposta exacerbada do sistema de defesa que, ao tentar eliminar o vírus, acaba lesando o próprio corpo, algo comum na Covid-19. Nos casos mais graves, que levam à morte, o Sars-CoV-2 parece danificar diretamente estruturas tão distintas quanto o coração, os intestinos ou até mesmo o cérebro. Apresentadas em um artigo publicado em 29 de abril na revista EClinicalMedicine, essas conclusões resultam da análise de autopsias feitas em cinco crianças e adolescentes que morreram por causa da Covid-19 na cidade de São Paulo. Esse trabalho tem como primeiros autores o patologista Amaro Nunes Duarte Neto e a bióloga Elia Caldini, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP), e seu resultado ajuda a compreender por que os sinais clínicos da SIM-P, que até 13 de março tinha acometido ao menos 813 crianças no Brasil (139 no estado de São Paulo), podem variar de um indivíduo para outro e talvez permita encontrar formas mais eficazes de controlar a síndrome.

“Essa foi a primeira vez em que se identificou o vírus infectando diretamente células do coração, dos intestinos e do cérebro de crianças. Confirmamos essas observações por meio de diferentes técnicas”, conta a patologista Marisa Dolhnikoff, professora da FM-USP e coordenadora do estudo. “Nossos resultados indicam que a lesão causada pelo Sars-CoV-2 nos diversos órgãos está diretamente associada à resposta inflamatória e ao comprometimento multissistêmico da SIM-P”, completa.

Ao longo do ano passado, ao menos 10 crianças e adolescentes com Covid-19 atendidos nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) do Hospital das Clínicas da FM-USP morreram em consequência da doença. Cinco deles, com idade variando de uns poucos meses a 15 anos, foram encaminhados para autopsia. Embora o número seja pequeno, essa é até o momento a maior série de autopsias em crianças com Covid-19.

Nas instalações do projeto Plataforma de Imagem na Sala de Autopsia (Pisa), a equipe coordenada por Dolhnikoff e pelo também patologista Paulo Saldiva adota uma estratégia minimamente invasiva para realizar o procedimento. Em um projeto desenvolvido com apoio da FAPESP, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Fundação Bill e Melinda Gates, os médicos usam um aparelho de ultrassom portátil para analisar os diferentes órgãos e guiar a coleta de pequenas amostras de tecido por meio da punção com uma agulha, o que costuma facilitar a autorização dos familiares.

Nessas autopsias, os pesquisadores identificaram dois padrões de apresentação clínica da Covid-19: uma pulmonar e outra fora dos pulmões, em órgãos variados. No primeiro caso, os dois pacientes tinham um problema de saúde grave preexistente. Um deles era um bebê com menos de 1 ano, que nasceu prematuro e com uma síndrome genética, e o outro, uma adolescente que apresentava uma forma avançada de câncer. Em ambos, o vírus afetou principalmente os pulmões, como ocorre com a maioria dos adultos que contraem o coronavírus.

A segunda forma de manifestação foi a SIM-P e se caracterizou principalmente por lesões nos intestinos, no coração ou no cérebro. As três crianças tinham entre 8 e 12 anos, eram previamente saudáveis e, dias após a infecção por Sars-CoV-2, desenvolveram o quadro clínico compatível com essa síndrome, definido em maio de 2020 pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos (ver quadro). Os pacientes com SIM-P apresentaram comprometimento pulmonar leve. A morte ocorreu em consequência de lesões graves em outros órgãos, causadas pela ação do vírus combinada com resposta exacerbada do sistema de defesa.

Uma das crianças desenvolveu uma inflamação intensa nos intestinos (colite), enquanto a outra teve inflamação tanto da musculatura cardíaca (miocardite) quanto das membranas que revestem o coração – o caso havia sido descrito em detalhe pela equipe da USP em um artigo publicado em outubro na revista Lancet Child & Adolescent Health. O órgão mais afetado na terceira criança foi o cérebro. Ela apresentou um quadro de encefalopatia aguda, com confusão mental e crises convulsivas. “A presença do vírus nesses órgãos reforça a participação direta do Sars-CoV-2 no acometimento multissistêmico”, afirma o pediatra Werther Brunow de Carvalho, coordenador das UTIs pediátricas e neonatais do Instituto da Criança da USP e coautor do trabalho. “A causa da SIM-P não se restringe a uma reação inflamatória disseminada”, afirma.

No cérebro, o vírus foi observado no interior de astrócitos, células que nutrem e sustentam os neurônios, enquanto nos intestinos, ele estava em células da musculatura lisa, responsável pelas contrações que transportam o alimento. Já no coração o vírus infectou os cardiomiócitos, células que compõem o músculo cardíaco e o fazem pulsar. Nos três casos, os pesquisadores também encontraram cópias do coronavírus infectando o endotélio, a camada de células que reveste internamente os vasos sanguíneos. Por essa razão, os patologistas do grupo levantaram a hipótese de que o vírus, depois de penetrar pelo sistema respiratório, dissemina-se por meio do sangue das crianças e pode se instalar em distintos órgãos-alvo. Por razões ainda desconhecidas, os tecidos infectados podem variar de uma pessoa para outra. “Além de levar à disseminação do vírus, a infecção do endotélio pelo Sars-CoV-2 é a principal causa de tromboses pulmonares observadas nessas crianças, similares às documentadas em pacientes adultos com Covid-19”, explica Dolhnikoff.

“Com base nos dados dessas autopsias, indicamos que talvez o tratamento das crianças precise ser diferente daquele dos adultos”, relatou Saldiva em um depoimento dado no início de maio na seção Pesquisa na Quarentena, do site da Pesquisa FAPESP. “Talvez a resposta seja usar anti-inflamatórios em alta dose e um anticoagulante, porque há um componente trombótico muito grande.”

Quem primeiro soou um alerta chamando a atenção para essa síndrome associada à Covid-19 foi o sistema público de saúde do Reino Unido, o NHS. Em abril de 2020, pouco mais de um mês depois de a OMS decretar a pandemia, a entidade divulgou uma mensagem informando aos pediatras um pequeno aumento no número de casos de um problema muito raro e grave em crianças associado ao coronavírus (ver Pesquisa FAPESP nº 292). Sua apresentação clínica era incomum. Exibia sintomas semelhantes aos da doença de Kawasaki, uma enfermidade rara que provoca a inflamação dos vasos sanguíneos (vasculite) e pode se manifestar depois de infecções virais, e aos da síndrome do choque tóxico, quadro associado à infecção por bactérias que pode levar à queda importante da pressão arterial (choque).

Microscopia eletrônica colorida artificialmente de uma célula cerebral (oligodendrócito) infectada com cópias do novo coronavírus (setas no destaque)Caldini / Departamento de Patologia da FM-USP

À medida que o vírus se espalhou pelo Ocidente, as diferenças se tornaram mais marcantes. Estudos populacionais começaram a mostrar que a SIM-P se manifestava em adolescentes e crianças um pouco mais velhas que as habitualmente afetadas pela doença de Kawasaki (até 5 anos), com sinais de miocardite, choque, sintomas gastrointestinais (dor abdominal, diarreia ou vômito) e neurológicos (dor de cabeça, tontura). A SIM-P também parece ser um pouco mais frequente em meninos e de etnia não caucasiana.

Em uma análise de 56 casos de SIM-P atendidos em 17 UTIs infantis brasileiras, apresentada em novembro no Jornal de Pediatria, a médica Fernanda Lima Setta, responsável pela Divisão de Terapia Intensiva Pediátrica da Rede D’Or São Luiz no Rio de Janeiro, constatou que 70% eram meninos e 59% não brancos. Nos Estados Unidos, esses números são, respectivamente, 50% e 63%. Por razões desconhecidas, a mortalidade aqui parece ser mais elevada do que lá. Os CDC registravam 3.185 casos de SIM-P até 29 de março nos Estados Unidos, com 36 mortes (1,1% do total), enquanto no Brasil, segundo dados do Ministério da Saúde, houve 813 casos, com 51 óbitos (6,3%). “É provável que essa proporção aparentemente mais alta de mortes seja consequência do subdiagnóstico da síndrome no Brasil”, comenta Lima Setta. Por causa do baixo índice de testagem, aqui possivelmente só se detectam os casos mais graves e os óbitos, o que poderia inflar artificialmente o número (os casos menos severos deixariam de ser contabilizados). Outros fatores que podem contribuir, segundo a pediatra, é a falta de treinamento dos médicos para reconhecer a síndrome e o desconhecimento dos pais, que tardariam a buscar ajuda médica – embora não se possa descartar o efeito da carência de recursos em algumas regiões do Brasil sobre esses casos.

Também em novembro, imunologistas da Itália e da Suécia, sob a coordenação de Petter Brodin, do Instituto Karolinska, compararam a resposta imune de crianças com SIM-P com a de pacientes com Kawasaki e encontraram diferenças que ajudam no diagnóstico e no tratamento: essas doenças ativam populações um pouco distintas de células de defesa chamadas linfócitos T. Além disso, o quadro de inflamação exacerbada é controlado por compostos inflamatórios diferentes: a interleucina 6 (IL-6) é mais importante na SIM-P, enquanto na doença de Kawasaki é a interleucina 17A (IL-17A), normalmente liberada em doenças autoimunes.

Na opinião de Lima Setta, é importante deixar claro que os casos de SIM-P são muito raros e, com o tratamento adequado, as crianças evoluem bem. Dependendo da gravidade, a terapêutica pode incluir o uso de anticorpos e anti-inflamatórios potentes, além de compostos para reduzir a coagulação do sangue. “Com os picos da pandemia, esperávamos um grande aumento no número de casos de crianças nas UTIs”, conta a pediatra. “Felizmente não aconteceu.”

No Brasil, além de aparentemente haver mais mortes por SIM-P, a taxa geral de óbitos de criança por Covid-19 é anormalmente elevada. Até 15 de março deste ano houve ao menos 852 mortes de indivíduos com até 9 anos de idade. Algumas projeções indicam que esse número seja quase 10 vezes superior ao registrado nos Estados Unidos, o país em que mais morreu gente por causa da doença.

Projeto
Uso de modernas técnicas de autópsia na investigação de doenças humanas (Modau) (nº 13/21728-2); Modalidade Projeto Temático; Pesquisador responsável Paulo Hilário Nascimento Saldiva (USP); Investimento R$ 5.818.510,25.

Artigos científicos
DUARTE-NETO, A. N. et al. An autopsy study of the spectrum of severe COVID-19 in children: From SARS to different phenotypes of MIS-CEClinicalMedicine. 25 abr. 2021.
DOLHNIKOFF, M. et al. SARS-CoV-2 in cardiac tissue of a child with COVID-19-related multisystem inflammatory syndromeLancet Child & Adolescent Health. 1º out. 2020.
LIMA-SETTA, F. et al. Multisystem inflammatory syndrome in children (MIS-C) during SARS-CoV-2 pandemic in Brazil: a multicenter, prospective cohort studyJornal de Pediatria. 9 nov. 2020.
CONSIGLIO, C. R. et al. The immunology of multisystem inflammatory syndrome in children with COVID-19Cell. 12 nov. 2020.

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App traz dados sobre mais de 270 espécies da Mata Atlântica

Fonte: site ciclovivo

Fruto de uma parceria entre a Embrapa e a UFRRJ, o “Restaura Mata Atlântica” está disponível para download gratuito.

Por Redação CicloVivo – 2 de junho de 2021

reflorestamento
Mata Atlântica Foto: Heris Rocha

Pesquisadores da Embrapa Agrobiologia (RJ) e da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) desenvolveram um aplicativo com informações detalhadas de 276 espécies vegetais da Mata Atlântica. O objetivo é subsidiar técnicos e produtores rurais para conciliar o planejamento ambiental à atividade agrícola para que possam produzir, conservar ou mesmo restaurar o bioma. O Restaura Mata Atlântica pode ser usado em ambientes on-line ou off-line, é gratuito e está disponível para download na loja de aplicativos Google Play.

O aplicativo permite identificar de forma rápida e dinâmica informações sobre as principais espécies florestais nativas do bioma, como por exemplo o nome científico, o nome popular e onde ocorre. “Além de dados botânicos, buscamos inserir as características funcionais das espécies, como sua capacidade de fixação biológica de nitrogênio, a atratividade que exerce sobre a fauna silvestre e a oferta de produtos florestais madeireiros e não madeireiros”, explica o pesquisador da Embrapa Luiz Fernando Duarte de Moraes, um dos idealizadores do App.

Para obter as informações, o usuário pode optar e utilizar o botão “Busca catálogo” ou “Busca por estado”. Para cada opção, é possível criar filtros considerando espécies fixadoras de nitrogênio, biomas, uso econômico, tipos de solo e ocorrência. Além disso, é possível saber se a espécie é ameaçada de extinção, criar uma lista de espécies “favoritas” e ainda compartilhar as informações.

Segundo Moraes, a ideia é oferecer uma ferramenta que permita o planejamento ambiental e econômico para os projetos de restauração, contribuindo assim para o uso racional dos recursos naturais. “O ponto de partida é a relação entre a biodiversidade e o funcionamento de ecossistemas”, comenta o pesquisador. Ele explica que a escolha adequada das espécies, baseada nas suas características ecológicas, fitotécnicas e seu potencial econômico, contribui para aumentar a probabilidade do sucesso dos projetos de restauração florestal.

A falta de evidentes retornos econômicos e produtivos pela restauração das áreas de preservação permanente e de áreas de reserva legal dificulta sua adoção pelo produtor rural, mesmo em situações em que é necessária a reparação de danos ambientais.

Devido aos altos custos de implantação e manutenção, muitos proprietários rurais entendem a prática de restauração como uma concorrente em área de produção, além de representar um gasto a mais na propriedade.

“Por isso, eles têm dificuldades em visualizar a contribuição dessa prática para a conservação dos recursos naturais e a provisão de serviços ambientais, importantes também para a produção agropecuária, como a disponibilidade de água”, explica o cientista. Com o aplicativo, o produtor, ou o técnico, pode escolher as espécies que mais se adequam à sua realidade e que também possam lhe trazer algum retorno econômico.

Restaura Mata Atlântica

Por ser uma base extensa, com mais de 700 espécies, os idealizadores explicam que não será incomum encontrar lacunas de informação para algumas espécies. “O que parece fragilidade é justamente uma grande oportunidade de exercermos o princípio da Ciência Cidadã, um tipo de ciência baseada na participação voluntária de todo cidadão interessado em compartilhar seu conhecimento para o bem da coletividade”, explica o pesquisador.

A concepção dos criadores é de um produto de construção contínua e coletiva, em que o usuário pode colaborar a qualquer momento. “Quem dispuser de alguma informação que queira compartilhar para enriquecer nossa lista de espécies vai encontrar a orientação no próprio aplicativo”, complementa Moraes.

Apesar de 276 espécies ser considerado um acervo robusto, o Restaura Mata Atlântica já nasce com a possibilidade de expansão. Projetado e construído com a filosofia de ser extensível, ele pode agregar dados adicionais sobre novas espécies ou mesmo ser expandido e apresentar informações de outros biomas brasileiros. Além disso, segundo o professor da UFFRJ Sérgio Serra, o Restaura é facilmente atualizável. “Entre as possíveis melhorias estão a adição de imagens das plantas e a oferta de interfaces mais inclusivas para usuários portadores de necessidades especiais”, revela o professor.

“As informações técnicas estavam em várias publicações e repositórios sob diversos formatos. Foi necessário desenvolver um modelo de dados que fosse ao mesmo tempo dinâmico, eficaz e extensível, sendo capaz de agregar e armazenar um grande volume de dados heterogêneos”, conta Serra.

Artes: Christine Saraiva

Fruto de uma parceria entre a Embrapa e a UFRRJ, o Restaura foi desenvolvido por uma equipe multidisciplinar formada por estudantes dos cursos de Agronomia (Pedro Vieira) e Sistemas de Informação (Renan Miranda, Gabriel Rizzo e Felipe Klinger) da Universidade, tendo como mentores o professor Serra e o pesquisador Moraes.

“A parceria permitiu não apenas a criação de um produto inovador e robusto, mas principalmente a formação de profissionais com novas habilidades e competências para encarar os novos desafios da sustentabilidade e da agricultura 4.0”, relata o professor.

Por Embrapa Agrobiologia.

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Investimentos em soluções baseadas na natureza precisam triplicar até 2030

Fonte: Site ciclovivo

Investir na natureza favorece a saúde humana, animal e planetária, melhora a qualidade de vida e cria empregosPor Redação CicloVivo -31 de maio de 2021

valor da natureza
Foto: Timothy Meinberg | Unsplash

Para enfrentar com sucesso as crises interligadas de clima, biodiversidade e degradação da terra é necessário um investimento de US$ 8,1 trilhões na natureza entre agora e 2050 – enquanto o investimento anual deve chegar a 536 bilhões de dólares.

O relatório Estado das Finanças para a Natureza, lançado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e parceiros no dia 27 de maio de 2021, aponta que os investimentos anuais em soluções baseadas na natureza terão que triplicar até 2030 e quadruplicar até 2050 em relação aos investimentos atuais em soluções baseadas na natureza, que é de US$ 133 bilhões de dólares (utilizando 2018 como ano base).

Produzido pelo PNUMA; o Fórum Econômico Mundial (WEF, da sigla em inglês); e a Iniciativa Economia da Degradação da Terra (ELD, da sigla em inglês), por meio da Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit (GIZ) em colaboração com a Vivid Economics, o relatório encoraja governos, instituições financeiras e empresas a superar a lacuna de investimento.

Soluções baseadas em florestas por si só, incluindo manejo, conservação e restauração, exigirão 203 bilhões de dólares anuais, de acordo com o relatório. Foto | Veeterzy/Unsplash

O documento enfatiza a necessidade de acelerar rapidamente os fluxos de capital para soluções baseadas na natureza, tornando a natureza central para a tomada de decisões relacionadas aos desafios da sociedade nos setores público e privado, incluindo enfrentar as crises climáticas e de biodiversidade.

Liberando o potencial de soluções baseadas na natureza

São necessárias transformações estruturais para fechar a lacuna de financiamento de 4,1 trilhões de dólares entre agora e 2050, promovendo uma reconstrução mais sustentável após a pandemia de COVID-19, mas também redirecionando subsídios agrícolas e de combustíveis fósseis prejudiciais e criando outros incentivos econômicos e regulatórios.

Investir na natureza favorece a saúde humana, animal e planetária, melhora a qualidade de vida e cria empregos. No entanto, a natureza atualmente é responsável por apenas 2,5% dos gastos de estímulo econômico projetados pós-COVID-19. O capital privado também terá que ser ampliado dramaticamente para fechar a lacuna de investimento.

benefícios das florestas
Foto: Willian Justen de Vasconcellos | Unsplash

O desenvolvimento e a ampliação de fluxos de receita dos serviços ecossistêmicos e o uso de modelos de financiamento combinado como meio de atrair capital privado estão entre o conjunto de soluções necessárias para que isso aconteça, o que também requer compartilhamento de risco de entidades do setor privado.

“A perda de biodiversidade já está custando à economia global 10% de sua produção a cada ano. Se não financiarmos suficientemente as soluções baseadas na natureza, impactaremos as capacidades dos países de fazer progresso em outras áreas vitais, como educação, saúde e emprego”, disse a diretora-executiva do PNUMA, Inger Andersen.

“SE NÃO SALVARMOS A NATUREZA AGORA, NÃO SEREMOS CAPAZES DE ALCANÇAR O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL.”

Inger Andersen, diretora-executiva do PNUMA

“O relatório é um alerta para governos, instituições financeiras e empresas investirem na natureza – incluindo reflorestamento, agricultura regenerativa e a restauração do nosso oceano”, afirma Inger. Ela ressalta que os países e as lideranças da indústria terão a oportunidade de fazer isso nas próximas cúpulas relacionadas ao clima, biodiversidade, degradação da terra e sistemas alimentares, e no contexto da Década das Nações Unidas da Restauração de Ecossistemas (2021-2030).

Reimaginar, recriar, restaurar 

Soluções baseadas em florestas por si só, incluindo manejo, conservação e restauração, exigirão US$ 203 bilhões em despesas anuais totais em todo o mundo, de acordo com o relatório. O equivalente a pouco mais de US$ 25 por ano para cada cidadão e cidadã em 2021.

O relatório apela para a associação de investimentos em ações de restauração com financiamento de medidas de conservação. O que poderia resultar em aumentos de área florestal e agroflorestal (combinação de produção de alimentos e cultivo de árvores) de aproximadamente 300 milhões de hectares até 2050, em relação a 2020.

As próximas cúpulas sobre clima, biodiversidade, degradação da terra e sistemas alimentares, bem como o lançamento da Década das Nações Unidas da Restauração de Ecossistemas em 5 de junho de 2021 oferecem uma oportunidade de aproveitar o impulso político e empresarial para alinhar a recuperação econômica com o Acordo de Paris e o Quadro Global para a Biodiversidade Pós-2020 antecipado e, portanto, consistente com a limitação do aquecimento a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais, bem como com a redução e reversão da perda de biodiversidade.

Tornar a natureza um investimento 

Foto: Pixabay

O relatório aponta que o investimento anual do setor privado em soluções baseadas na natureza foi de US$ 18 bilhões em 2018. O financiamento privado representa apenas 14%, incluindo o capital mobilizado por meio de cadeias de suprimentos agrícolas e florestais sustentáveis, investimentos de capital privado, compensações de biodiversidade financiadas por setores privados, capital filantrópico, financiamento privado alavancado por organizações multilaterais e florestas e outros mercados de carbono relacionados ao uso da terra.

No financiamento climático, o investimento do setor privado é responsável pela maioria dos fluxos de capital (56% de acordo com a Climate Policy Initiative). A ampliação do capital privado para soluções baseadas na natureza é um dos desafios centrais dos próximos anos, com foco específico no investimento na natureza para apoiar o crescimento econômico sustentável no século 21.

Investidores, desenvolvedores, fabricantes de infraestrutura de mercado, clientes e beneficiários podem desempenhar papéis na criação de um mercado no qual as soluções baseadas na natureza acessem novas fontes de receita, aumentem a resiliência das atividades comerciais, reduzam custos ou contribuam para a reputação e o propósito.

Embora várias iniciativas lideradas pelo setor privado já tenham surgido, o relatório enfatiza a necessidade de empresas e instituições financeiras fazerem cada vez mais parte da solução, compartilhando o risco e se comprometendo a impulsionar o financiamento e o investimento em soluções baseadas na natureza de forma ambiciosa e com metas claras e com limite de tempo.

Investimentos em soluções baseadas na natureza não podem substituir a profunda descarbonização de todos os setores da economia, mas podem contribuir para o ritmo e a escala de mitigação e adaptação às mudanças climáticas necessários.

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Mais desmatamento, menos chuva e menor produção agrícola

Fonte: Pesquisa FAPESP

Em 20 anos, precipitação pode ter caído à metade em áreas que perderam 60% da vegetação nativa, com perdas anuais estimadas em R$ 5,7 bilhõesÁrea desmatada de Rondonópolis, leste do estado de Mato Grosso, preparada para o plantio de soja: perda de vegetação nativa reduz a quantidade de chuva e a produtividade agrícola

Aquantidade anual de chuva pode ter caído à metade ao longo dos últimos 20 anos em regiões de Rondônia, norte de Mato Grosso e sul do Pará onde a agropecuária ocupou até 60% de áreas antes florestadas, de acordo com análises da equipe do Centro de Sensoriamento Remoto da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Publicado em 10 de maio na revista científica Nature Communications, esse trabalho indicou que as áreas mais atingidas pela redução da precipitação são grandes produtoras de soja.

“Financeiramente não compensa desmatar para produzir, porque em poucos anos a perda causada com a redução de chuvas será maior que o ganho de produção decorrente do aumento da área plantada”, conclui o engenheiro florestal Argemiro Teixeira Leite-Filho, da UFMG, principal autor do trabalho. “O desmatamento de um ano faz a produtividade cair já no ano seguinte.”

Causada pelo aumento do albedo (capacidade de refletir a luz solar) e pela queda na umidade liberada pela vegetação nas áreas desmatadas em comparação com a das florestas, a redução de chuva pode causar uma perda de produtividade estimada em US$ 1 bilhão (R$ 5,7 bilhões) por ano na produção de soja e carne na região amazônica, de acordo com esse estudo.

“Neste ano ainda está chovendo bastante no sul da Amazônia, por causa do La Niña [esfriamento das águas da região equatorial do oceano Pacífico], mas em anos de El Niño [aquecimento do Pacífico equatorial] a diminuição da chuva pode intensificar a seca”, diz Leite-Filho.

As análises da equipe da UFMG, coordenadas pelo geólogo Britaldo Soares-Filho, se apoiaram em informações do Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Brasileira por Satélite (Prodes) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e do satélite Tropical Rainfall Measuring Mission (TRMM) da Nasa, a agência espacial dos Estados Unidos, de 1999 a 2019.

Os pesquisadores avaliaram a perda de vegetação nativa e a redução da precipitação em células de 28, 56, 112 e 224 quilômetros quadrados (km2) em uma área total de 1,9 milhão de km2, do sul da região amazônica, do Acre ao Tocantins (ver mapa). O trabalho contou com apoio do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Tecnológicas (CNPq), Banco Mundial e Fundação de Pesquisa da Alemanha (DFG).

“A ciência já alerta para a possibilidade há mais de 10 anos, mas esse trabalho é o primeiro a quantificar o prejuízo econômico decorrente da diminuição da chuva”, diz o físico Paulo Artaxo, do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IF-USP), que não participou do estudo. Especialista na pesquisa sobre aerossóis e membro da coordenação do Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG), ele foi um dos autores do trabalho que em 2016 mostrou como partículas de aerossóis influenciam a formação e o desenvolvimento de nuvens na Amazônia.

De imediato, em escala local, o desmatamento pode aumentar a quantidade de chuva, de acordo com um estudo publicado em junho de 2003 na Remote Sensing of Environment. “As áreas desmatadas ficam mais quentes, o albedo muda e surgem circulações de correntes de ar que favorecem o aumento da chuva”, diz um dos autores do trabalho, o meteorologista Luiz Augusto Machado, filiado ao Instituto Max Planck da Alemanha e ao IF-USP, após se aposentar no Inpe.

Esse efeito desaparece, porém, quando a área sem vegetação nativa se amplia. “Quando o desmatamento alcança grandes proporções, com a perda da vegetação nativa em centenas de hectares, o efeito da circulação atmosférica local torna-se muito limitado e ocorre claramente uma redução da precipitação”, acrescenta Machado. Ele alerta: “O prejuízo é muito maior se considerarmos que o desmatamento na Amazônia reduz drasticamente a chuva nas regiões Sul e Sudeste”.

Estação chuvosa mais curta
Leite-Filho observou outro efeito do desmatamento: o adiamento do início e o encurtamento em cerca de 30 dias da estação chuvosa no sul da Amazônia, de acordo com um trabalho que publicou em setembro de 2019 na International Journal of Climatology. As chuvas, que nessa região normalmente começam em setembro e seguem até abril, indicam o que e quando plantar.

Em dezembro de 2020, o jornal O Estado de S. Paulo noticiou que as chuvas irregulares e em uma quantidade 50% menor que a média desde agosto já haviam causado uma perda de 7,3 milhões de toneladas de grãos, principalmente soja, milho e arroz, em todo o país na safra 2020/21.

“O desmatamento também tem aumentado a frequência e a duração dos veranicos”, diz o pesquisador. Veranicos são períodos secos em meio à estação chuvosa que prejudicam o desenvolvimento das culturas agrícolas.

Artaxo ressalta: “Se o desenvolvimento brasileiro depender da venda de carne, soja e outras commodities agrícolas a serem produzidas no Brasil Central, é melhor preservar a Amazônia para continuar a ter chuva abundante na região”.

Artigos científicos
LEITE-FILHO, A. T. et al. Deforestation reduces rainfall and agricultural revenues in the Brazilian AmazonNature Communications. v. 12, 2591, p. 1-7. 10 mai. 2021.
DURIEX, L. et al. The impact of deforestation on cloud cover over the Amazon arc of deforestationRemote Sensing of Environment. v. 86, n. 1, p. 132-40. 30 jun. 2003.
LEITE-FILHO, A. T. et al. The southern Amazon rainy season: the role of deforestation and its interactions with large scale mechanismsInternational Journal of Climatology. v. 40, n. 4, p. 2320-41. 30 set. 2019.

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