O misterioso sumiço das árvores – por Agostinho Vieira

Achei a matéria abaixo muito boa!!! Repasso na íntegra. A fonte é o site:

http://projetocolabora.com.br/florestas/o-estranho-sumico-das-arvores/

 O misterioso sumiço das árvores

Números desmentem o marketing verde das Olimpíadas do Rio

O verde da cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos não se refletiu no resto da cidade. Foto de Antonin Thuillier/AFP
O verde da cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos não se refletiu no resto da cidade. Foto de Antonin Thuillier/AFP

Já se passaram sete anos desde que o Rio de Janeiro prometeu ao mundo que plantaria 24 milhões de árvores até a abertura dos Jogos Olímpicos de 2016. É razoável imaginar, portanto, que se não chegamos ao número sonhado, pelo menos alguma coisa deve ter sido feita. Obviamente, a cidade é mais verde hoje do que era em 2009. Certo? Errado. Dados do Instituto Pereira Passos (IPP), órgão ligado à Prefeitura, mostram que a cobertura vegetal do Rio, entre 2009 e 2015 (último ano disponível), caiu. O Mapa do Uso do Solo indica que a nossa “cobertura arbórea e arbustiva” ficou 3,5 km² menor. Por incrível que pareça, perdemos entre 700 mil e 900 mil árvores. Quando se consideram também os mangues e a vegetação rupestre a queda é maior: 6,0 km² ou cerca de 1,5 milhão de árvores.

Como é possível prometer 24 milhões, anunciar o plantio de 5 a 8 milhões e ver a cobertura vegetal da cidade cair em mais de 1 milhão de árvores? Ou as mudas não foram plantadas, ou o desmatamento no Rio foi muito maior ou as árvores, simplesmente, desapareceram. Se vigas gigantescas somem, por que algumas árvores não podem desaparecer também?

Em compensação, ganhamos mais de 10 km² de área construída.  Será que foram as favelas, mais uma vez, que cresceram? Não. O Armazém de Dados do IPP revela que a área ocupada por comunidades carentes no Rio também caiu. Pouco, mas caiu. De 46,8 km² para 46,1 km². Estranho. Talvez tenha sido aquela Área de Proteção Ambiental (APA) transformada em Campo de Golfe Olímpico na Barra que causou essa confusão toda.

Se a campanha do Rio para sediar os Jogos teve problemas, nenhum deles pode ser creditado ao marketing ou à divulgação do projeto. A criação de um produto atraente e vendável era parte do jogo. A começar pelo slogan: “Jogos Verdes para um Planeta Azul”. Como os fins sempre parecem justificar os meios, a cruzada carioca em direção à vitória Olímpica estava repleta de promessas que variavam entre o duvidoso e o impossível: despoluir 80% da Baía de Guanabara, limpar as lagoas da Barra, construir a linha 4 do Metrô, instalar três BRTs e plantar as tais 24 milhões de árvores.

Esta última bravata aparece na página 98 do Dossiê da Candidatura, com um texto que fala na criação de um “Parque do Carbono”, com 1.360 hectares, que seria localizado no Parque Estadual da Pedra Branca.  Ali, o Instituto Estadual de Florestas poria 3 milhões das 24 milhões de árvores que seriam plantadas antes que a Tocha Olímpica fosse acesa.

coberturavegetalrio/Fernando Alvarus

O “Parque do Carbono” foi lançado oficialmente em fevereiro de 2011. Naquele momento, segundo consta, começariam a ser plantadas 2,6 milhões de mudas. De lá para cá, as versões da Secretaria Estadual de Ambiente (SEA) sobre o plantio de árvores olímpicas variaram de 2,5 mil hectares a 3,2 mil hectares. Uma delas fala também em 5,5 milhões de árvores. Se em um hectare cabem 2.000 ou 2.500 árvores, dependendo da espécie e do espaçamento entre elas, estamos falando de algo entre 5 milhões e 8 milhões.

Como é possível prometer 24 milhões, anunciar o plantio de 5 a 8 milhões e ver a cobertura vegetal da cidade cair em mais de 1 milhão de árvores? Ou as mudas não foram plantadas, ou o desmatamento no Rio foi muito maior ou as árvores, simplesmente, desapareceram. Se vigas gigantescas somem, por que algumas árvores não podem desaparecer também?

Essas perguntas, com poucas variações, foram feitas para alguns órgãos envolvidos com o tema. O Comitê Rio 2016 não respondeu. A Fundação Parques e Jardins (FPJ) disse que a Secretaria Municipal de Meio Ambiente estaria mais aparelhada para falar. O que ela fez, gentilmente. O mesmo aconteceu com a Secretaria Estadual do Ambiente. Nenhuma das duas contestou os dados do IPP e ambas apresentaram suas versões da história.

A Secretaria Municipal mostrou dados diferentes, referentes aos anos de 2010 e 2014, baseados no Programa Sig-Floresta. Nesse período, não teria havido queda, e sim um crescimento de 4,4 km², cerca de 900 mil árvores. Ao mesmo tempo, a nota sustenta que, entre 2009 e 2015, foram plantadas 3,2 milhões de mudas de espécies nativas. Já a Secretaria Estadual fala em 3.097 hectares restaurados desde 2009, com cerca de 5 milhões de mudas plantadas em municípios como Itaboraí, São João da Barra, Rio de Janeiro e Teresópolis. Ela não deixa claro quantas foram destinadas à capital.

Enquanto a cobertura vegetal da cidade diminuiu, a área construída cresceu mais de 10 km². Foto de Michael Kappeler/AFP
Enquanto a cobertura vegetal da cidade diminuiu, a área construída cresceu mais de 10 km². Foto de Michael Kappeler/AFP

Desde o início desta história, o objetivo era compensar as emissões de carbono dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos, estimadas em 3,6 milhões de toneladas. Hoje, salvo mudanças de última hora, a tarefa principal está com a The Dow Chemical Company, patrocinadora mundial dos Jogos. Eles fariam a compensação recuperando pastos na Bahia e no Mato Grosso do Sul. Longe dos olhos dos chatos que gostam de checar promessas.

É aí que mora uma parte do problema. Quando uma autoridade promete que daqui a sete anos serão plantadas 24 milhões de árvores, ela conta com dois fatores: o tempo, que talvez faça as pessoas esquecerem; e a impossibilidade de verificar, exatamente, se o número foi entregue. O Mapa do Uso do Solo, do IPP, e mesmo o Sig-Floresta, da Secretaria de Meio Ambiente, neste caso, funcionam como espécie de “bottom line” verde, a última linha de um balanço. Seria mais simples, verificável e honesto, dizer que a cobertura vegetal do Rio cresceria X por cento em tanto tempo, e que o resultado poderia ser acompanhado através da ferramenta Y.

Mas isso já é sonhar demais. No mundo real, enquanto as árvores do show olímpico não aparecem, vamos abrindo as cortinas para as novas atrações: As árvores do Rock in Rio na Amazônia e a Floresta dos Atletas. Esta última, coincidentemente, também promete ser erguida no Parque Estadual da Pedra Branca. Ela nascerá daquelas sementinhas plantadas por 12 mil atletas do mundo todo durante a cerimônia de abertura da Rio 2016. Foram 15 mil sementes. O problema é que o índice de perdas médio num viveiro de mudas é da ordem de 30%. Com isso, a nova floresta já nasceria com 4,5 mil unidades a menos. Se tudo correr bem, sobrariam 10.500 mudas. Mais ou menos 5 hectares ou 5 campos de futebol. É bom, mas não resolve. E o pior: continuaremos plantando marketing, enterrando a transparência e colhendo menos áreas verdes do que tínhamos há dez anos.

diadaarvore

 

Postagem: Blanche Sousa Levenhagen – Ecobio/kastor Consultoria AmbientalLaudos de fauna e Caracterização de Vegetação, Licenciamento ambiental, regularização ambiental, projetos de recuperação de área degradada, projetos de compensação ambiental e outros serviços ambientais.

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